Habermas e o destino da nossa democracia
Jürgen Habermas morreu em 14 de março de 2026, em Starnberg, aos 96 anos, levando consigo a última voz do Iluminismo disposta a defender, com rigor sistemático, que a democracia só funciona onde o discurso público é livre. Coincidência infeliz, Habermas saiu de cena exatamente quando o Brasil demonstra o que acontece quando os guardiões da Constituição decidem que o silêncio dos outros é condição para sua própria segurança.
Na mesma semana, um ministro do Supremo Tribunal Federal ordenou busca e apreensão na residência de um jornalista que havia denunciado o uso irregular de veículos oficiais pela família de outro ministro do STF. A democracia perdeu seu teórico mais consequente enquanto um dos nossos tribunais mais poderosos produzia, por decreto judicial, um efeito de intimidação sobre a imprensa crítica.
A decisão do ministro Alexandre de Moraes contra o jornalista Luís Pablo revela sua intenção pelo que escolhe atacar. O sigilo de fonte, corolário elementar da liberdade de imprensa em qualquer manual de Direito Constitucional, torna-se aqui obstáculo a ser removido por decreto. O raciocínio é o seguinte: o Estado não pode calar o jornalista antes da publicação sem incorrer em censura prévia, inconstitucional e politicamente custosa; pode, contudo, vasculhar sua casa depois, expor sua fonte e tornar a reportagem crítica uma aventura que nenhum servidor público com bom senso vai repetir. Censura prévia e intimidação........
