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Já nasceu a última pessoa a escrever um doutoramento?

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05.03.2026

Em dezembro deste ano fará vinte anos que defendi o meu doutoramento. As regras da academia são canónicas e hegemónicas. Só o doutoramento valida, perante os pares, a minha competência para exercer o meu trabalho. Em termos práticos, é um carimbo de legitimação, a credencial que franqueia a passagem para uma nova ordem. Na cerimónia de atribuição do grau, na minha universidade sueca, há séculos que os recém-doutorados recebem o diploma depois de transporem uma fronteira simbólica, marcada no palco, que separa as trevas do mundo do conhecimento. “Te admitto et incorporo in collegium doctorum … cum omnibus honoribus, libertatibus, exemptionibus et privilegiis”, recita o reitor, numa espécie de adhan universitário.

Um académico sem doutoramento é como um sacerdote sem ordenação ou um soldado sem juramento de bandeira.

O título de doutor, do latim doctor (“mestre”, “aquele que ensina”), começou a ser atribuído na Universidade de Bolonha no final do século XII, em áreas como o Direito, a Medicina e a Gramática (ver imagem). Se a licenciatura concede uma “licença” para ensinar, o doutoramento sanciona a entrada na corporação dos mestres. É assim há mais de 800 anos.

Mas estamos em março de 2026. Se a IA recolhe, organiza e disponibiliza quase todo o conhecimento existente, cabe-nos a nós, membros dessa “corporação”, reavaliar o sistema à luz desta mudança.

A nossa primeira reação foi reduzir a IA a um assistente de investigação. Uma caixa de ferramentas que alivia a rotina fabril. O trabalho de um académico aprende-se por osmose, à força de repetir e falhar, falhar e repetir. Por isso, muitos de nós respiraram de alívio quando começaram a usar o SciSpace, Evidence Review Accelerator (TERA) ou Abstrackr (entre muitas dezenas de outros instrumentos potenciados por IA). Pesquisa e tratamento de dados, gestão de informações bibliográficas, edição de texto, programação, análise textual e estatística, tudo ficou mais fácil. Até há ferramentas que dão feedback científico instantâneo. Lembro-me de ter demorado uma semana a padronizar, com a cabeça em latejo, a bibliografia e as referências da minha tese de doutoramento em estilo Harvard, um pré-requisito. Hoje demoraria segundos.

Primeiro o computador, nos anos 80. Depois a Internet, nos anos 2000. Agora a IA. À primeira vista, são apenas tecnologias de apoio. Aumenta-se a produtividade. Tudo, aparentemente, igual.

Depois percebemos que estas........

© Expresso