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Quando tudo falhou, as pessoas ficaram

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16.02.2026

Regresso agora às funções autárquicas depois de um período de ausência forçada por razões de saúde. Volto num contexto particularmente exigente, marcado por uma das maiores crises que o concelho de Pombal, a região e o país viveram nas últimas décadas: a tempestade Kristin.Acompanhei esta tragédia a partir de casa, em recuperação de uma cirurgia delicada. Tal como milhares de cidadãos, vivi dias sem eletricidade, sem água e com comunicações muito limitadas. Desta vez, não apenas como responsável político, mas como cidadão vulnerável. Essa experiência marcou-me profundamente.Quando tudo falha — quando a energia desaparece, quando a água não chega às torneiras, quando o silêncio substitui a informação — percebemos rapidamente o que realmente sustenta um território. Não são apenas as infraestruturas. São as pessoas.A tempestade Kristin expôs fragilidades estruturais que não podem ser ignoradas: a excessiva dependência de redes elétricas vulneráveis, a falta de redundância nas comunicações, a dificuldade de resposta rápida em contextos de falha total e prolongada. Revelou também a necessidade de uma articulação mais ágil entre o poder local e o Estado central perante situações de emergência extrema.Mas evidenciou, sobretudo, a força das comunidades e das autarquias.Vi cidadãos a ajudarem cidadãos. Vi vizinhos a cuidarem uns dos outros. Vi emigrantes a regressarem para reparar casas de familiares. Vi instituições sociais a funcionarem no limite para proteger os mais frágeis. Vi bombeiros, forças de segurança, técnicos da proteção civil e voluntários a fazerem mais do que lhes era exigido.E vi autarcas — presidentes de câmara, de junta e vereadores — a serem, quase sempre, o único rosto do poder público em aldeias isoladas, sem luz, sem água e sem comunicações. A proximidade do poder local foi determinante para manter a coesão social, acalmar populações exaustas e garantir respostas mínimas quando os sistemas falharam.A política local tem mostrado, por estes dias, a sua verdadeira razão de existir. Houve medo. Houve revolta. Houve protestos. Houve palavras duras — muitas delas legítimas. Quem passa dias sem serviços essenciais tem direito à indignação. A dignidade das pessoas vem sempre antes das explicações técnicas. Essa é uma lição que deve ser assumida com humildade por todos os níveis do poder político.Mas é igualmente importante afirmar que a resposta a este tipo de tragédia não pode ficar limitada à resiliência das comunidades locais. A solidariedade não pode substituir o Estado. E a capacidade de resistência das pessoas não pode servir de desculpa para atrasos na resposta nacional.Em crises desta dimensão, o tempo é decisivo. Os apoios têm de chegar rapidamente ao território. As decisões políticas têm de se traduzir em meios no terreno, em recursos humanos, em apoio às famílias, às empresas e às autarquias. Cada dia de atraso aumenta o sofrimento, o desgaste social e o risco de fratura da confiança das pessoas nas instituições.A tempestade Kristin demonstrou que os mecanismos de resposta existem, mas precisam de ser mais céleres, mais robustos e mais próximos da realidade vivida no terreno. A distância entre o anúncio das medidas e a sua concretização prática foi sentida pelas populações e agravou a sensação de abandono em momentos particularmente difíceis.Este meu regresso às funções autárquicas faz-se, por isso, com gratidão e com compromisso.Gratidão a todos os que não desistiram do seu território quando tudo parecia falhar. Gratidão às pessoas, às associações, às instituições e aos autarcas que seguraram as comunidades nos dias mais duros.E compromisso em aprender com o que aconteceu.A tempestade Kristin não pode ser apenas mais um episódio a desaparecer da agenda política e mediática quando as luzes voltarem a acender-se na totalidade. Os prejuízos, o impacto económico, o desgaste social e emocional e as fragilidades reveladas não desaparecem com o tempo. Ficam. Mas fica também outra coisa.Fica a memória de um território que resistiu. Fica a prova de que, mesmo quando tudo falha, as comunidades sabem cuidar umas das outras. Fica a certeza de que o poder local, porque é próximo, faz, efetivamente, a diferença na vida das pessoas.É a partir dessa base que deve ser construída a recuperação. Com respostas mais rápidas, com apoios que chegam a tempo, com políticas públicas que aprendem com os erros e com investimentos que tornam os territórios mais resilientes e mais justos.A tempestade Kristin pode — e deve — ser um ponto de viragem. Um momento em que transformamos sofrimento em aprendizagem, fragilidade em preparação e desgaste em compromisso renovado.Porque, quando tudo falha, são as pessoas que ficam. E quando as pessoas ficam, há futuro.


© Expresso