A economia entrou no campo de batalha
Durante décadas, a Defesa Nacional foi pensada a partir de cinco domínios operacionais: terrestre, marítimo, aéreo, cibernético e espacial. Esta arquitetura refletia uma visão clássica da segurança, centrada sobretudo na projeção de força militar. Porém, a sucessão de crises que marcou os últimos quinze anos — financeira, pandémica, energética e geopolítica — veio expor uma realidade cada vez mais evidente: a economia deixou de ser apenas o suporte material da defesa para se afirmar como um verdadeiro campo de disputa estratégica.
Hoje, a economia é simultaneamente instrumento de poder, espaço de vulnerabilidade e terreno de confronto. Em muitos aspetos, tornou-se o sexto domínio da Defesa Nacional.
A guerra na Ucrânia tornou esta transformação particularmente visível. As sanções económicas, o controlo de cadeias de abastecimento críticas, a manipulação de preços da energia e dos alimentos e a instrumentalização do comércio internacional mostraram que a coerção económica pode produzir efeitos comparáveis aos da força militar tradicional.
A interdependência, que durante décadas foi vista sobretudo como um fator de estabilidade, revelou também a sua face mais dura: a dependência pode transformar-se rapidamente em vulnerabilidade. Para estados de pequena e média dimensão e com economias abertas, como é o caso de Portugal, ignorar esta realidade é simplesmente imprudente.
No debate nacional, contudo, esta ligação entre economia e segurança continua a surgir de forma fragmentada. A política de defesa é frequentemente tratada como um universo separado das grandes opções económicas, como se se tratasse de esferas distintas.
No entanto, as nossas dependências energética e alimentar externas, a falta de autoabastecimento de matérias de base, a concentração de importações em sectores críticos, a fragilidade da base tecnológica e industrial de defesa ou a exposição a choques financeiros internacionais, mostram que a economia nacional está inevitavelmente no centro da equação da segurança.
Reconhecer este facto não significa militarizar a economia. Significa, antes, compreender que a resiliência económica é hoje uma dimensão essencial da soberania.
A União Europeia tem vindo a evoluir neste sentido. Nos últimos anos, conceitos como autonomia e resiliência estratégicas, segurança económica ou soberania tecnológica ganharam espaço no vocabulário político europeu. Instrumentos como a triagem de investimento estrangeiro, os programas de financiamento das redes transeuropeias de transportes, energia e telecomunicações, de matérias e tecnologias críticas ou as novas políticas industriais, refletem uma leitura mais realista do contexto internacional. A economia europeia é simultaneamente um ativo estratégico e um potencial alvo de pressão externa, o que implica a coexistência de abordagens defensivas e ofensivas neste âmbito.
No caso português, acompanhar esta evolução exige mais do que alinhar discursos com Bruxelas. Exige uma visão estratégica capaz de identificar sectores críticos, como a energia, as infraestruturas digitais, as tecnologias emergentes ou as cadeias industriais essenciais e sensíveis, e tratá-los também como questões de segurança nacional. Ao mesmo tempo, implica reforçar a capacidade de projeção económica externa do país, num mundo em que influência económica e poder político se tornaram cada vez mais indissociáveis.
Também no seio da NATO esta mudança de paradigma é visível. Embora continue a ser uma aliança essencialmente político-militar, a organização passou a dar maior atenção à proteção das cadeias de abastecimento, à segurança energética e à resiliência económica das sociedades aliadas. A defesa coletiva depende, em última análise, da capacidade das economias para sustentar esforços prolongados, absorver choques externos e evitar dependências estratégicas excessivas, sobretudo em relação a rivais sistémicos.
Enquanto membro fundador da Aliança Atlântica, para Portugal isto significa repensar o contributo nacional para além da dimensão estritamente militar. A estabilidade macroeconómica, a robustez das infraestruturas críticas ou a capacidade industrial são hoje também elementos relevantes do esforço coletivo de defesa.
A integração da economia no pensamento estratégico coloca, naturalmente, desafios institucionais. Desde logo, exige uma cultura estratégica que articule de forma mais sistemática a política económica, a política industrial e a política de defesa. A revisão do Conceito Estratégico de Defesa Nacional, que está neste momento em curso, poderá ser uma oportunidade para consagrar explicitamente esta dimensão económica e estabelecer mecanismos permanentes de coordenação entre áreas governativas que tradicionalmente têm funcionado de forma relativamente autónoma.
Mas este debate também exige prudência, na medida em que a defesa dos interesses económicos nacionais não deve ser confundida com reflexos protecionistas ou com um dirigismo estatal pouco criterioso. Para um país profundamente integrado no mercado único europeu e fortemente dependente das exportações, o isolacionismo seria não apenas irrealista como contraproducente.
A resposta passa menos por erguer barreiras e mais por diversificar parceiros, reduzir dependências críticas e reforçar capacidades próprias em sectores estratégicos. Em suma, trata-se de combinar abertura económica com inteligência estratégica. No fundo, reconhecer a economia como um domínio da Defesa Nacional é aceitar que a segurança do século XXI já não se joga apenas no campo militar. Joga-se igualmente nos mercados financeiros, no acesso à energia, nas cadeias logísticas globais e na capacidade tecnológica das economias.
Para Portugal, esta constatação pode ser vista como um problema ou como uma oportunidade. A oportunidade de alinhar desenvolvimento económico, inovação tecnológica e segurança nacional numa visão coerente e plenamente integrada no quadro europeu.
Persistir na separação, cada vez mais artificial, entre Economia e Defesa não é apenas um anacronismo conceptual. É, sobretudo, um risco estratégico que o país dificilmente poderá continuar a ignorar.
