Inflação: Portugal mais eletrificado seria mais resiliente, mas refém da abertura
Quem abastece hoje em Portugal sente-o de imediato: os combustíveis voltaram a subir significativamente, à semelhança do que aconteceu em 2022. Em poucas semanas, o barril de Brent subiu de 72 dólares, no final de fevereiro, para perto de 100 dólares, impulsionado pelo conflito no Médio Oriente entre os EUA e Israel e o Irão. O impacto chegou rapidamente às bombas, sobretudo ao gasóleo, que passou de cerca de 1,60 € por litro para mais de 2 €, apesar da redução do imposto sobre os produtos petrolíferos (ISP), insuficiente para travar um novo surto inflacionista. Perante este cenário, instalou-se rapidamente uma ideia quase automática: se os combustíveis sobem, então tudo sobe. As expectativas de subidas surgem, os agentes económicos antecipam custos mais elevados e muitos preços acabam por ser ajustados em alta, por vezes ainda antes do final do mês ou da próxima encomenda. Segue-se o conhecido efeito em cascata ao longo de toda a cadeia de valor. Isto acontece porque, em larga medida, a economia global continua a depender do petróleo, que, no caso português, representa cerca de 50% da sua matriz energética primária.
Mas o impacto desta dinâmica pode depender, em parte, da estrutura energética de cada economia. Portugal continua a ser uma economia pouco eletrificada, representando 25% da sua matriz energética primária, um valor acima da média mundial de 19,8%, mas aquém dos níveis dos países nórdicos, como a Suécia e a Noruega, de 50%, ou da Finlândia, com 40%, o terceiro país mais eletrificado do mundo. Se os agentes económicos tivessem, na sua grande maioria, veículos elétricos, dir-se-ia o mesmo aquando do carregamento e o seu efeito na inflação? Não. O preço da eletricidade mantém-se estável, sobretudo na Península Ibérica, e não existiriam, pelo menos do lado da energia elétrica, argumentos para a subida dos preços. Mas, para isso, seria necessário que a economia estivesse muito mais eletrificada, pelo menos em níveis próximos dos países escandinavos, onde a eletricidade é metade da energia primária consumida.
O conflito no Médio Oriente, sobretudo o bloqueio do Estreito de Ormuz, impulsionou os preços do petróleo e do gás natural. Ainda assim, a Europa revela hoje uma maior resiliência a essa subida do que na crise energética de 2022 ditada pela invasão russa da Ucrânia. Nessa altura, o preço do gás natural no mercado TTF holandês, referência europeia, chegou aos 350 €/MWh, ditando a forte alta dos preços da eletricidade. Atualmente, o preço do gás duplicou, de 30 para 60 €/MWh, um impacto claramente mais contido. Na produção de eletricidade, é o gás natural que é utilizado nas centrais elétricas, e não o gasóleo. O petróleo quase não é utilizado na produção de eletricidade, sendo sobretudo usado em pequenos geradores a gasóleo — residenciais, hospitalares, militares ou empresariais. Já nas centrais elétricas, quando as renováveis, como a solar e a eólica, produzem menos por falta de sol ou vento, e a hídrica não consegue responder a todas as necessidades, entram em funcionamento as centrais a gás natural, que continuam a ser por vezes determinantes na formação do preço da eletricidade.
Na Península Ibérica, os preços da eletricidade ainda subiram, na primeira metade de março, pontualmente até aos 200 €/MWh, sobretudo durante a noite, quando foi necessário recorrer ao gás natural para produzir eletricidade, não havendo produção solar e sendo a hídrica e a eólica insuficientes para responder às necessidades do sistema. Mas o reforço das energias renováveis tem sido cada vez maior, e Portugal produziu cerca de 85% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis em 2025 e 90% em 2024, tendo, nesse ano, o gás natural respondido por apenas 4,9 TWh, num total anual de produção de eletricidade de 45,7 TWh, de acordo com a REN.
Espanha ainda utiliza 20% de gás natural na produção de eletricidade, contando também com 20% de eletricidade de origem nuclear, mas a produção hídrica espanhola é apenas o dobro da portuguesa, o que é reduzido face à dimensão do país. Embora a eletricidade represente apenas cerca de 25% da matriz energética primária portuguesa — ainda assim acima da média mundial de 19,8% — e em Espanha esse valor seja mais baixo, cerca de 22%, a Península Ibérica apresenta hoje uma maior resiliência e independência na produção elétrica. Nesta última semana de março, os preços da eletricidade já desceram significativamente, tendo mesmo atingido valores negativos nas horas de maior produção solar, por volta do meio-dia, beneficiando das boas condições meteorológicas na Península Ibérica. Do lado da eletricidade, não há, assim, motivos para pressões inflacionistas, sendo o seu efeito, em algumas horas do dia, até deflacionista.
A situação difere de país para país na Europa. França é o 5º país mais eletrificado do mundo, beneficiando de um forte peso do nuclear, cerca de 40% no mix energético primário, que assegura grande parte da sua produção elétrica (80%), contribuindo para preços estáveis, em torno dos 35 €/MWh. Já Itália enfrenta maiores dificuldades, com preços próximos dos 150 €/MWh, refletindo elevada dependência de petróleo e gás natural (80% da matriz energética primária). O gás, em particular, pesa 50% na produção de eletricidade italiana. O abandono da energia nuclear após o desastre de Chernobyl contribuiu, em parte, para esta dependência. Na Alemanha, o preço da eletricidade ronda os 35 €/MWh, porque o gás natural representa apenas 15% da produção de eletricidade, enquanto o restante é assegurado por carvão (21%), eólica (27%), solar (18%) e outras fontes renováveis. Acresce ainda a importação de eletricidade a preços mais baixos de países vizinhos, como a França, de origem nuclear, quando há excedentes.
Há assim uma maior resiliência da economia europeia relativamente a 2022, com a menor dependência do gás russo, mas o petróleo e os combustíveis fósseis ainda têm muito peso, capazes ainda de alimentar um surto inflacionista e condicionar a política monetária do BCE.
Mesmo nos países mais eletrificados, como a Suécia e a Noruega, a inflação atingiu níveis elevados em 2022, respetivamente de 12% e 6%, influenciada pela desvalorização das suas moedas, cerca de 20%, face ao euro — tanto a coroa sueca como a norueguesa — culminando em inflação importada. A elevada abertura das suas economias incorporou os preços mais altos do resto da Europa. A integração do sul da Suécia na rede elétrica do centro da Europa, que inclui a Alemanha, impediu-a de beneficiar dos preços mais baixos das barragens do norte. Mesmo a Finlândia, apesar de fazer parte do euro, acabou por ser contagiada pela inflação elevada no resto do bloco económico. Ou seja, a elevada eletrificação destes países não afastou a inflação elevada no resto da Europa, liderada pelo seu principal motor económico, a Alemanha, com taxas de inflação próximas dos 9% no final de 2022 e início de 2023, culminando em duas recessões consecutivas em 2023 e 2024, num período marcado pela estagflação.
Apenas uma economia avançada não registou inflação elevada: a Suíça. Apesar de ser mais aberta do que a Suécia e a Noruega, conseguiu escapar à inflação elevada — o máximo foi de 3,5% em agosto de 2022, tendo no ano seguinte desacelerado para 1,5%. Beneficiou de um sistema elétrico assente quase exclusivamente em duas fontes — 50% hídrica e 40% nuclear — e o restante renovável, praticamente sem gás natural, sendo a quarta economia mais eletrificada do mundo (35%). Todavia, a menor inflação é explicada pelas tarifas reguladas de eletricidade e gás, sobretudo para as famílias, e, em grande medida, pelo facto de o franco suíço ser uma moeda de refúgio por excelência, tendo valorizado quase 10% face ao euro desde o início da Invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 até agosto do mesmo ano, contribuindo para atenuar significativamente a inflação importada.
Em suma, a eletrificação aumenta a resiliência, mas não isola da inflação, pois economias abertas importam preços externos, sendo apenas uma moeda forte capaz de anular parte desse efeito.
