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Somos mais antigas do que as vossas leis

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25.03.2026

O meu nome é uma oração. Não da forma que me ensinaram a rezar em criança, de joelhos, com as mãos juntas e os olhos fechados. Mas da forma como se invoca aquilo que não tem explicação fácil: a graça. Esse estado de ser que não se conquista nem se merece. Que simplesmente acontece, quando se para de lutar contra si própria.

Demorei décadas a chegar à graça.

Durante esse tempo, vesti várias máscaras. Não uma, mas muitas. Experimentei gestos, vozes, silêncios, posturas. Tentei cumprir, com a maior disciplina possível, o papel que o mundo esperava de mim. Fiz aquilo que tantas pessoas trans fazem para sobreviver: representar. E talvez aqui esteja uma das maiores mentiras que nos contam: a de que a adaptação resolve tudo. Não resolve. Pode adiar o confronto, pode proteger por momentos, mas cobra um preço alto, o de nos afastarmos de nós próprias. Há um ponto em que esse afastamento deixa de ser sobrevivência e começa a ser desaparecimento. Quando finalmente encontrei palavras para quem sou, percebi que não estava sozinha nesse adiamento. Há uma geração inteira de pessoas que chegou tarde a si própria porque o mundo tornava esse caminho quase impossível. Não por falta de coragem. Por excesso de violência.

A graça, afinal, tinha estado sempre lá. Só precisava de espaço para respirar.

No dia 19 de março, dia do pai, dia de São José, ironicamente a Assembleia da República discutiu três projetos de lei apresentados pelo Chega, pelo CDS-PP e pelo PSD. No dia 20, votou a favor deles. Propõem revogar a Lei que consagra o direito à autodeterminação da identidade de género, e repor a exigência de diagnóstico clínico obrigatório como condição para existirmos perante o Estado.

A verdade vos libertará. Ao que parece, primeiro tentam legislá-la.

As pessoas trans são frequentemente vistas como um problema a resolver. Mas talvez sejamos, antes de tudo, um espelho incómodo. Porque quando alguém vive autenticamente fora do guião esperado, torna-se difícil fingir que o guião era inevitável. E isso perturba não apenas quem nos olha com hostilidade, mas também quem se habituou a cumprir papéis que nunca escolheu completamente.

O homem que só pode mostrar virilidade. A mulher, que carrega tudo sem pedir ajuda. O jovem que engole os seus sonhos para caber numa expectativa. Toda a gente conheceu, de formas diferentes, o peso de ser a versão de si que o mundo consegue suportar. Não é que as pessoas trans desafiem o sistema. É o sistema que nunca esteve à altura da humanidade.

A minha transição é uma montanha-russa. Não no sentido divertido da palavra, mas naquele em que o corpo não mente e o medo convive com o desejo de viver. É arriscar viver em liberdade. E descobrir, com espanto e lucidez, que a liberdade incomoda. Sou uma afronta não porque grite, mas porque existo. Porque denuncio, sem dizer uma palavra, as pequenas prisões das vidinhas organizadas, dos afetos vigiados, das escolhas feitas por medo e chamadas de estabilidade. A minha existência não argumenta. Reflete. Não escolhi ser exceção. Escolhi não continuar a desaparecer.

Há uma ironia cruel em chamar graça ao que sobrou depois de tanto ser retirado. E ainda assim, é o que ficou. E é real.

Há muita gente da heteronormatividade no armário. Armários cheios de desejo não vivido, de ancestralidade sensorial proibida, de gestos interrompidos por medo, por estatuto, por conveniência. O sistema sexo-género que herdámos ensinou o corpo a ter vergonha e o desejo a pedir perdão. E quando olham para nós, há algo que lembra. O corpo sabe antes da linguagem.

Por isso não digo: abandona tudo. Digo algo mais simples e mais difícil: vem. Vem com cuidado. Vem com medo, se for preciso. Olha para nós. Dá-nos as mãos. Não somos exceção. Somos memória viva do que foi silenciado. Nós conhecemos o rumo da liberdade não porque sejamos especiais, mas porque tivemos de inventá-lo quando não havia lugar para nós. Este não é um convite para nos seguires. É um convite para te encontrares.

A graça não é um privilégio. É um direito.

E este momento político exige mais do que opinião. Exige ação. Os projetos aprovados na generalidade ainda percorrem um longo caminho legislativo: baixam à especialidade, podem ser alterados, e o Presidente da República tem o poder de os vetar. A lei atual mantém-se em vigor.

A graça não pede licença. Mas às vezes precisa que alguém abra a porta.

Para as pessoas trans que estão a ler isto em estado de exaustão, de medo ou de dor: esta não é a derrota final. Já estivemos em sítios mais escuros do que este. E saímos de lá com mais clareza sobre quem somos e o que defendemos. A espontaneidade que foi colocada em quarentena para sobreviver não morreu. Reaparece em espaços seguros, com pessoas que não exigem performance, em instantes de distração verdadeira. Às vezes num gesto banal. Às vezes num riso.

No dia 29 de março, há manifestações da visibilidade trans no Porto e em Lisboa. No dia 31, assinala-se o Dia Internacional da Visibilidade Trans. Dois momentos para aparecer, para estar presente, para dizer em voz alta: existimos e temos pessoas aliadas. Não estamos atrasadas. Estamos a chegar com o corpo inteiro, com a vida toda, com a graça que nunca foi vossa para dar nem vossa para tirar.


© Expresso