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Somos mais antigas do que as vossas leis

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25.03.2026

O meu nome é uma oração. Não da forma que me ensinaram a rezar em criança, de joelhos, com as mãos juntas e os olhos fechados. Mas da forma como se invoca aquilo que não tem explicação fácil: a graça. Esse estado de ser que não se conquista nem se merece. Que simplesmente acontece, quando se para de lutar contra si própria.

Demorei décadas a chegar à graça.

Durante esse tempo, vesti várias máscaras. Não uma, mas muitas. Experimentei gestos, vozes, silêncios, posturas. Tentei cumprir, com a maior disciplina possível, o papel que o mundo esperava de mim. Fiz aquilo que tantas pessoas trans fazem para sobreviver: representar. E talvez aqui esteja uma das maiores mentiras que nos contam: a de que a adaptação resolve tudo. Não resolve. Pode adiar o confronto, pode proteger por momentos, mas cobra um preço alto, o de nos afastarmos de nós próprias. Há um ponto em que esse afastamento deixa de ser sobrevivência e começa a ser desaparecimento. Quando finalmente encontrei palavras para quem sou, percebi que não estava sozinha nesse adiamento. Há uma geração inteira de pessoas que chegou tarde a si própria porque o mundo tornava esse caminho quase impossível. Não por falta de coragem. Por excesso de violência.

A graça, afinal, tinha estado sempre lá. Só precisava de espaço para........

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