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O capitalismo já não é a língua da direita

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08.09.2026

Durante muito tempo, a direita ocidental falou do mercado como se este tivesse uma autoridade própria. Quanto menos obstáculos encontrasse, melhor. O Estado devia garantir as regras, cobrar impostos e evitar intrometer-se demasiado na economia. A globalização podia fechar fábricas, deslocar empregos e esvaziar cidades industriais, mas esses custos eram apresentados como parte de uma mudança maior, destinada a produzir mais riqueza. Essa confiança perdeu-se. O mercado continua a ser aceite, só já não ocupa o lugar que ocupava.

A mudança é curiosa porque a crítica veio, em muitos casos, de sectores políticos que durante décadas defenderam posições económicas bastante diferentes. A direita radical fala hoje de bancos, multinacionais, deslocalização industrial, consumismo e perda de poder dos trabalhadores. Fala de comunidades que viram desaparecer as fábricas sem encontrar outra coisa no seu lugar. Fala de produtores que não conseguem competir com bens fabricados a milhares de quilómetros. Algumas palavras mudaram de dono político. “Trabalhador”, “produção”, “proteção” e até “solidariedade” deixaram de pertencer exclusivamente à esquerda. Os resultados na Alemanha, com a AfD a confirmar a sua força, mostram que esta linguagem deixou de ser marginal no debate político europeu.

A resposta, porém, não é a mesma. A esquerda tradicional procurava corrigir os efeitos do mercado através da redistribuição, dos direitos sociais e de instituições de carácter universal. A extrema-direita tem uma ideia diferente de quem deve beneficiar dessa proteção. O trabalhador é protegido enquanto membro da nação. A família recebe apoio enquanto forma de continuidade social. A empresa doméstica merece preferência porque produz dentro das fronteiras. A solidariedade permanece, mas já não precisa de ser universal.

Durante décadas, a direita económica convencional teria visto com desconfiança grande parte destas políticas. Hoje, tarifas, subsídios, política industrial, controlo de sectores considerados essenciais e restrições à dependência externa fazem parte do repertório de uma direita mais intervencionista. O Estado pode escolher sectores,........

© Expresso