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O Brasil não é para principiantes

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26.10.2026

Jair Bolsonaro foi condenado por tentar impedir que Lula da Silva tomasse posse. Quatro anos depois, o filho esteve a poucos milhões de votos de chegar à Presidência. Na primeira volta, Flávio Bolsonaro obteve cerca de 47% dos votos, contra 45% de Lula. As sondagens antecipavam uma vitória da extrema-direita e alguns aliados já discutiam a composição do governo. Três semanas depois, Lula venceu com quase 52%. Pela primeira vez desde que o Brasil passou a eleger o Presidente em duas voltas, um candidato que perdera a primeira venceu a segunda. Lula conquistou o quarto mandato, enquanto a direita reforçava a sua presença no Congresso.

Lula conhece melhor do que quase ninguém o Brasil dos trabalhadores pobres. Retirou milhões da pobreza e presidiu a um período de prosperidade que ainda marca a memória de muitos brasileiros. Entretanto, o trabalho mudou. Milhões vivem de pequenos negócios ou de plataformas digitais, pagam o combustível e a manutenção do automóvel antes de saberem quanto ganharam. Flávio prometeu-lhes um ministério da Prosperidade, procurando conquistar trabalhadores que valorizam a independência e raramente se reconhecem na linguagem tradicional da esquerda. Lula respondeu com o alívio das dívidas dos pequenos negócios e novos apoios sociais. Aprendeu a fazer política nas fábricas. Muitos destes trabalhadores nunca tiveram um patrão.

André Janones, deputado federal eleito pela Rede Sustentabilidade, encontrou uma campanha que falava como um governo, enquanto a direita falava diariamente com os eleitores. Organizou um canal de WhatsApp com milhões de seguidores, distribuindo mensagens e tarefas de mobilização. Apresentou-se como general do “Exército do Lula”. O Presidente, que ainda no ano anterior dizia não ter telemóvel, começou a gravar vídeos informais. A segunda volta registou a maior participação eleitoral em vinte anos. Lula agradeceu publicamente a Janones e prometeu comunicar diretamente com os brasileiros, várias vezes por dia. Aos 80 anos, passou a ter também um “exército” no WhatsApp.

Flávio contribuiu para a recuperação do adversário. No último debate televisivo, chamou “nove dedos” a Lula, numa referência ao dedo perdido num acidente de trabalho. Lula recordou que trabalhava de noite porque precisava de comer. O episódio tornou-se viral. O senador, filho de um antigo Presidente, ofereceu-lhe a oportunidade de recordar uma vida que muitos brasileiros reconhecem como próxima da sua. Lula confrontou-o ainda com a condenação do pai e as suas relações controversas no Rio de Janeiro. Flávio passou parte da campanha a tentar distinguir-se de uma história........

© Expresso