Apresentem o recibo ao ministério da devolução
Vamos lá dourar a pílula sobre o sistema de digitalização. Afinal, este processo todo correu lindamente. Segundo a inesgotável criatividade ministerial, a grande vantagem desta maravilha tecnológica do digital é que, com a sua pasmosa celeridade e transparência cristalina, os 200 mil erros corrigem-se tão depressa e com tanta clareza que o futuro dos alunos desaparece do ecrã antes mesmo de termos tempo de chorar a desgraça.
Aliás, no último ano já tínhamos assistido à narrativa de devolução de responsabilidades do ministério da Educação, Ciência e Inovação que tinha vindo a informar os cientistas, os professores e o país de que têm a obrigação estrita de devolver à sociedade o investimento que neles é feito. Finalmente, alguém teve a clarividência institucional de esclarecer este equívoco milenar.
Durante décadas, investigadores e docentes viveram na doce ilusão de que formar cidadãos, produzir conhecimento e aturar turmas superlotadas a pão-de-ló já constituía algum tipo de devolução útil, mas afinal faltava o respetivo comprovativo, devidamente carimbado e agrafado com agrafos de alta resistência. Como se fosse uma espécie de MB Way intelectual onde o contribuinte envia dinheiro e o cidadão tem de devolver rapidamente patentes industriais, soluções milagrosas para o PIB ou uma belíssima fotografia ministerial antes do início das férias grandes. É a nova era da contabilidade criativa do espírito, onde a curiosidade científica e educativa passa a estar sujeita a retenção na fonte e o pensamento crítico é taxado por excesso de autonomia intelectual.
Esta extraordinária capacidade ministerial de deslocar responsabilidades atingiu o seu apogeu cósmico com as polémicas em torno dos exames nacionais do ensino secundário e do processo de correção digital. Numa demonstração cabal de que a pressa modernista é o caminho mais curto para o ridículo de gala, a tutela decidiu generalizar a correção digital a nível nacional com a precisão cirúrgica de um carpinteiro a operar a coração aberto e sem anestesia, ignorando olimpicamente os avisos dramáticos de todos os setores que alertavam para a fragilidade de um projeto experimental feito sem base sólida nem auscultação técnica.
O resultado desta engenharia de secretaria foi um desastre com sotaque de “Erro 502: Bad Gateway”. A plataforma informática transformou-se num monumento à instabilidade pura, onde professores ficavam bloqueados a meio da noite, na impossibilidade técnica de submeter classificações e falhas de segurança tão........
