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A Primeira Guerra pós-ruptura

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03.03.2026

Depois da experiência da Venezuela, o ataque de Israel e Estados Unidos da América contra o Irão já é a primeira guerra da pós-ruptura, o novo tempo de que falou Mark Carney, o primeiro-ministro canadiano, em Davos.

Os Estados Unidos da América e Israel não se preocuparam em enquadrar estes ataques em qualquer regra do direito internacional. Não o conseguiriam, é certo. Mas houve um tempo em que essa tentativa seria feita. Houve mesmo um tempo, depois do fim da Guerra Fria, em que, perante a brutalidade da repressão iraniana das manifestações dos últimos tempos, haveria quem exigisse uma intervenção em nome do direito de ingerência,. Esse tempo já lá vai. Nem direito internacional, nem direito internacional humanitário. Isto é sobre interesses de segurança e projecção de poder.

Neste conflito, a perspectiva de Israel é fácil de compreender. O Irão tem sido uma ameaça permanente. Mesmo que não houvesse nada iminente, pensando na segurança de Israel, qualquer ocasião é boa para acabar com a ameaça iraniana.

A perspectiva americana é menos óbvia. Os Estados Unidos da América têm várias razões de queixa contra o regime dos Ayatollahs, e têm interesse em recuperar a dinâmica dos Acordos de Abraão que o irão tenta sabotar, mas não é claro que houvesse uma ameaça iminente ou que a ameaça permanente fosse proporcional à força empenhada neste ataque.

Na Estratégia de Segurança Nacional americana, publicada há menos de seis meses, é dito que o Médio Oriente não é um problema, que a dependência energética está resolvida e que o Irão foi diminuído. Antes do verão tinha mesmo sido dito que o programa nuclear tinha sido “obliterado”. Em que ficamos?

A democratização não é a justificação, nem sequer um objetivo autónomo, como vimos na Venezuela. Aliás, se o regime, nas mãos da Guarda Revolucionária, escolhesse a rendição e a submissão, se fosse possível uma Delcy Rodriguez em Teerão, Washington aceitaria a mudança dentro do regime, ou o objectivo é a mudança de regime? Não é dito.

O 7 de Outubro foi a pior coisa que aconteceu a Israel, mas também foi a pior que aconteceu ao Irão. Os seus proxies na região foram, esses sim, praticamente obliterados. A capacidade de retaliação iraniana existe, óbvia e notoriamente, mas está diminuída. Internamente, os protestos do final do ano passado e a violência brutal da repressão terão tornado o regime ainda mais odiado.

O mais provável, sobre o tempo e o modo da acção, é que as circunstâncias internas e externas tenham sido entendidas, com razão, como sendo as que permitiam uma intervenção.

A reacção dos aliados dos americanos faz parte do novo tempo. Um dia depois de começar a guerra, o chanceler Merz disse que “as classificações do direito internacional terão pouco efeito sobre isto – especialmente se permanecerem em grande parte sem consequências”. O primeiro-ministro Carney declarou que o “Canadá apoia a ação dos Estados Unidos para impedir que o Irão obtenha uma arma nuclear e para impedir que o seu regime ameace ainda mais a paz e a segurança internacionais”. Nem um nem outro tentaram enquadrar a situação nem a sua posição na ordem que Carney disse em Davos que tinha acabado e Merz praticamente repetiu em Munique. Ambos consideram que o Irão é um perigo, que as circunstâncias permitiam a intervenção e que o seu interesse está com os Estados Unidos, Israel e os países do Golfo. Foi critério suficiente.

Nos próximos tempos vamos assistir a mais episódios destes. Na ausência de regras, ou de alguma obediência a regras, distintos cálculos nacionais determinarão as orientações e tornarão cada vez mais difícil uma posição comum. E, sobretudo, será impossível pensar com os critérios das últimas décadas. Nem tudo na morte de um ditador são boas notícias.


© Expresso