O PS que ainda funciona
O congresso do Partido Socialista realizou-se em Viseu, antigo bastião cavaquista onde, nas últimas eleições autárquicas, o PS local demonstrou que na política nada é impossível. A escolha do local não terá sido inocente: se uma candidatura de esquerda consegue vencer em Viseu, então talvez o partido possa mesmo recuperar do estado comatoso em que se encontra.
Mas talvez a principal lição de Viseu não esteja apenas no resultado: é igualmente relevante pensar em quem o tornou possível e que estratégia foi utilizada.
No fundo, este é o grande desafio de José Luís Carneiro: fazer, à escala nacional, o que muitos autarcas socialistas têm conseguido fazer a nível local. Num contexto difícil, em que a direita parece maioritária não só politicamente, mas também culturalmente em Portugal e um pouco por todo o mundo.
Ainda assim, considero que as maiorias políticas são sempre conjunturais. Não viveremos eternamente num ciclo de direita. Convém evitar o histerismo, o alarmismo e as figuras ridículas - como aquelas em que a direita caiu ao falar de uma suposta “mexicanização do regime”, aquando da maioria absoluta do Partido Socialista há quatro anos.
Mais relevante do que discutir ciclos políticos é perceber onde é que o PS continua, de facto, a funcionar.
Num congresso em que poucas intervenções se destacaram e onde a reflexão se perdeu, demasiadas vezes, em chavões genéricos e pouco ousados, foram os autarcas quem verdadeiramente se evidenciou. Desde logo, o anfitrião João Azevedo, mas também Inês de Medeiros, presidente da Câmara de Almada, ou Luísa Salgueiro, autora de uma das intervenções mais aplaudidas.
E isto não é um acaso.
Os autarcas do PS são hoje uma das principais razões da sobrevivência do partido. Estão na linha da frente junto das comunidades, lidam diretamente com a implementação das políticas públicas e com os problemas concretos das pessoas no seu dia a dia. São, por isso mesmo, quem melhor consegue conjugar convicção com pragmatismo.
Fazem política longe do ruído mediático — e talvez por isso sejam tantas vezes ignorados por quem, confortavelmente alapado num estúdio de televisão, desempenha a nobre função de treinador de bancada. Sem necessidade de dramatização permanente, mantêm uma preocupação essencial: resolver problemas.
É precisamente aqui que reside a principal lição para o PS.
Os tempos em que vivemos não pedem uma esquerda proclamatória. Pedem uma esquerda pragmática, capaz de transformar ambição em resultados concretos. E isso é algo que os autarcas fazem melhor do que ninguém.
Ao contrário do que acontece a nível local, o PS tem-se perdido, no plano nacional, em debates quase devocionais em torno de lideranças. Um exercício que resvala frequentemente para uma espécie de sebastianismo, onde o melhor líder é sempre o próximo, desde que ainda não tenha sido testado.
Durante anos, este tipo de inquietação identitária foi apontada ao PSD, um partido cujo único tronco comum parece resumir-se à figura mitificada de Sá Carneiro. O PS, pelo contrário, sempre soube ao que vinha, independentemente da liderança circunstancial.
Hoje, o partido parece mais empenhado em discutir perfis, calibrar ambições e contar espingardas para escaramuças internas do que em fazer aquilo que, em teoria, justificaria a sua existência. Vive-se numa espécie de campanha permanente, onde ninguém se assume verdadeiramente.
Pelo caminho, vai-se adiando esse detalhe menor: que projeto existe para o país e, já agora, como é suposto concretizá-lo. E, talvez mais exigente do que isso, clarificar o que somos neste momento — e como nos reinventamos num tempo em que a social-democracia tem sido uma das maiores derrotadas.
Num contexto político cada vez mais personalista, é natural que as figuras contem. Seria ingénuo pensar que os líderes são irrelevantes. Mas reduzir o debate político a isso é empobrecer o partido e afastá-lo daquilo que tem sido o seu maior trunfo no terreno.
Historicamente, o PS foi mais forte quando foi abrangente, plural e capaz de agregar diferentes sensibilidades. Foi mais fraco quando se fechou sobre si próprio.
Se quiser voltar ao poder, o PS não precisa de reinventar tudo. Precisa, antes de mais, de olhar para dentro e perceber onde ainda funciona - e, sobretudo, como funciona.
E hoje, onde melhor funciona é ao nível local.
Aprender com os autarcas na forma como combinam proximidade, pragmatismo e capacidade de execução, pode ser o primeiro passo para reconstruir uma alternativa credível a nível nacional.
