Liberdade não é anarquia: acorda Europa!
Há imagens que nenhuma cidade deveria ter de projetar para o mundo. Estabelecimentos saqueados, montras reduzidas a estilhaços, edifícios incendiados, monumentos feridos pela violência de quem confunde a ocupação da rua com a conquista de um direito absoluto. Paris voltou a conhecer este cenário. E com a capital francesa, toda a Europa foi confrontada com uma pergunta que há demasiado tempo procura evitar: em que momento começou a confundir-se a tolerância com a impotência, a liberdade com a anarquia, os direitos com o tribalismo?
Os acontecimentos de 17 de outubro, que levaram milhares de pessoas às ruas de várias cidades francesas e foram acompanhados por episódios de violência, pilhagem e destruição, não podem ser reduzidos a uma única causa, nem os responsáveis pela desordem confundidos com todos os que se manifestaram pacificamente. Existem reivindicações sociais legítimas, problemas económicos reais e uma insatisfação política que merece ser escutada. Uma democracia que não ouve os seus cidadãos condena-se a uma surdez perigosa. Mas uma sociedade que, em nome dessa escuta, aceita a destruição como uma extensão natural do protesto está a cometer um erro de outra natureza. Esse erro culmina na erosão total da fronteira que separada a contestação da intimidação.
Manifestar-se é um direito. Saquear não é uma modalidade de manifestação. Incendiar um edifício, agredir um agente da autoridade ou destruir o negócio de alguém não constitui uma forma superior de expressão política. O direito à indignação não suspende os deveres da cidadania. E a liberdade de uns não pode significar o medo permanente dos outros.
Esta é uma distinção elementar. E por mais básica ou evidente que seja, é preciso repeti-la em voz alta.
A Europa contemporânea construiu-se sobre uma ambição extraordinária: substituir a guerra pela cooperação, a arbitrariedade pela lei, a violência pela negociação. Depois de séculos de conflitos e de duas guerras mundiais que devastaram o continente, os europeus procuraram estabelecer uma ordem em que a dignidade humana, o pluralismo e a paz deixassem de depender exclusivamente da força de cada Estado. Não foi uma construção ingénua na sua origem. Foi uma resposta histórica à experiência da barbárie.
O problema começa quando os princípios que sustentam essa construção deixam de ser acompanhados pela capacidade de os defender. Quando a tolerância se transforma numa obrigação de tolerar tudo, quando a compreensão das causas sociais de um comportamento passa a ser confundida com a absolvição das suas consequências, a Europa arrisca-se a produzir precisamente o contrário daquilo que pretende proteger.
Uma mãe que se recusa........
