As pontas soltas da geopolítica
Vamos recuar até fevereiro de 1945, num salto temporal digno de um DeLorean. Estaline, Churchill e Roosevelt sentaram-se em Yalta para reconfigurar o mundo. Era o fim da Segunda Guerra Mundial e o início de uma nova ordem global. O peso dos dias sombrios pairava no ar, marcado por uma destruição profunda.
Ainda assim, surgia uma ideia frágil de esperança e a possibilidade de reaprender a viver em paz. Mas o que se seguiu não foi paz duradoura. Foi uma guerra fria, um confronto de equilíbrios instáveis, ameaças implícitas e tensões permanentes. No fundo, tratava-se de um mundo construído sobre questões não resolvidas, apenas congeladas.
Pontas soltas suspensas no ar da história.
Voltemos ao presente. O final do século XX parecia anunciar um novo começo, aquele “fim da História” declarado por Francis Fukuyama. A queda do Muro de Berlim trouxe a promessa de um mundo menos dividido. Mas essa promessa revelou-se incompleta. As guerras dos Balcãs mostraram que o passado não desaparece. Seguiram-se conflitos no Iraque e no Afeganistão. A instabilidade não foi resolvida e algumas fissuras perduraram.
Taiwan é uma delas. Mais do que uma ilha, é um ponto de fricção entre potências. Para a China, é uma questão de soberania. Já para o sistema internacional, um teste à estabilidade global, onde cruzam-se interesses militares, económicos e tecnológicos. A Península Coreana permanece como uma fratura aberta com potencial de instabilidade futura. A guerra de 1950 nunca foi formalmente concluída, tendo apenas sido suspensa. De um lado, um regime isolado e dotado de capacidade nuclear; do outro, uma democracia integrada na ordem internacional.
No Médio Oriente, persistem algumas das questões mais duradouras. A Palestina continua como um conflito por resolver, atravessado por ciclos de violência e por uma ausência prolongada de solução política definitiva, sem um Estado reconhecido. Também os curdos, dispersos por vários países, resistem como um povo sem Estado próprio, uma aspiração histórica que nunca encontrou concretização. O Irão acrescenta outra dimensão. A revolução de 1979 continua a projetar efeitos, com influência regional no Golfo Pérsico e no Médio Oriente, prolongando tensões e desafiando equilíbrios. Hoje, a força coerciva dos Estados Unidos e Israel procura redesenhar uma nova ordem na região, ainda com contornos incertos.
Na América Latina, a ausência de conflitos entre Estados mascara uma realidade de soberanias erodidas. A região é refém de décadas de interferências e da ascensão de poderes paraestatais como o narcotráfico. Cuba, o último reduto de uma herança soviética, parece estar agora a apagar-se lentamente. Este declínio funciona quase como uma metáfora visual: o filamento de uma ordem antiga que chega ao fim, anunciando que o tempo de certas sobrevivências anacrónicas se esgotou.
África procura, de forma gradual, trilhar o seu próprio caminho, tentando libertar-se de conflitos cristalizados no tempo. Ainda assim, muitos destes conflitos continuam alimentados por interferências externas e por interesses que nunca desapareceram por completo.
Na Europa de Leste, a estabilidade também está incompleta. A Ucrânia tornou-se símbolo de um espaço suspenso entre esferas de influência. A sua independência não eliminou as tensões estruturais e trouxe o passado de volta. Ao mesmo tempo, a Rússia não se integrou plenamente num espaço comum com a Europa e no mundo, e vê hoje a sua esfera de influência a contrair-se, sem ser claro como se redefinirá.
O velho continente, por sua vez, confronta-se cada vez mais consigo próprio. A Europa já não pode depender das antigas riquezas coloniais nem assumir como garantido o apoio financeiro e estratégico dos Estados Unidos. Esta nova posição encerra desafios, mas também uma oportunidade: a de se reinventar.
O que nos diz tudo isto? Que a história não avança em linha reta, que os conflitos não desaparecem, mas transformam-se, e que aquilo que não é resolvido tende a regressar.
Imaginemos então o futuro próximo.
Um novo encontro, com três líderes, ou talvez mais, mas com a mesma intenção: oficializar uma nova ordem mundial. Quem serão? E que mundo terão nas mãos? A ordem que daí emergir poderá estender-se até ao século XXII.
Resta saber se seremos meros espectadores ou protagonistas desta mudança. Num mundo onde a informação mobiliza e as sociedades influenciam decisões, a geopolítica deixou de estar confinada aos bastidores e infiltra-se no quotidiano, da circulação de ideias à precisão letal de um drone sobre as nossas casas.
Tudo é demasiado veloz e, por vezes, voraz. Mas é precisamente por isso que se impõe uma maior consciência do peso e do perigo das decisões tomadas pelos líderes atuais.
Porque nós não podemos, como Marty McFly, regressar ao passado para corrigir erros.
