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Ele me ensinava sem dizer a lição

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Meu pai morreu aos 88 anos de idade e até mesmo na última tempestade que presenciou sentiu-se enjaulado por uma angústia sem remédio. Ele conhecia a origem daquele profundo mal-estar, mas nada conseguia fazer para afastar o calor das chamas do inferno. Era noite fechada e meu pai uma criança assustada, chovia torrencialmente quando a empregada doméstica lhe disse que o trovão era a voz poderosa de Deus, irada por conta das suas travessuras e malcriações. O menino, ainda tão pequeno, reuniu as mãozinhas aflitas diante da face da ingenuidade e suplicou perdão a Deus. A tempestade, porém, continuou estalando eletricidade, riscando o céu, estremecendo as vidraças das janelas. Não houve perdão.

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Assim, de uma forma muito particular, como são particulares as dores, a lógica aristotélica da dualidade se instalou na vida de meu pai de uma forma aterradora. Sem saber, carregava sobre os ombros o peso do mundo. Como o certo está apartado do errado, o bem do mal, os fiéis dos ímpios e os homens tão insignificantes aqui na Terra da divindade inacessível lá em cima no céu, aquela criança amedrontada sentiu-se aprisionada entre aqueles que deveriam ser castigados até o último dos seus dias. O tempo passou, e toda vez que trovejava seu coração de adulto se contraía dentro da jaula de suas costelas. Ele, encolhido em um canto, Deus no seu exílio........

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