O velho novo versus o novo velho
Andava eu por uma avenida de Nova York retornando de um congresso, no princípio dos anos 2000, com a inocência de quem acha que vitrine é museu: olha-se e não se toca. Toquei. Era um sapato italiano “Made in Brasil”, Nova Serrana (MG), que me calçou como se já tivesse ouvido falar dos meus pés. O preço, esse, não falava a minha língua. Nem com fada madrinha, nem com abóbora virando carruagem. A Cinderela perdeu um sapato por descuido; eu estava prestes a perder o cartão de crédito por convicção.
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A convicção veio emprestada. Xico Souza Lima, parceiro de viagem, deu a sentença com a serenidade dos juízes que já viram tudo: "É sapato para o resto da vida". Maria Tereza, esposa dele, confirmou com o olhar, que é como as mulheres sensatas assinam embaixo. Sitiado por dois amigos e dois pés já seduzidos, capitulei. Sangrei o cartão, abracei a relíquia e fomos felizes até hoje.
O sapato e eu seguimos juntos. Eu envelheço e ele não tem uma ruga. Perdeu brilho, ganhou dobras, mas são dobras de quem andou, não de quem se cansou. Já me peguei indagando ao Criador por que não me fez à imagem e semelhança daquele couro. Ele não respondeu. Deus, como os bons sapateiros, não dá explicação sobre o acabamento.
É esse objeto, velho e novo ao mesmo tempo, que me vem à cabeça diante da escolha que o país tem pela frente nos próximos dias. Há o velho que serve e o novo que bate biela. Há coisas que não envelhecem porque foram bem feitas, e coisas que já nascem gastas porque foram feitas para a vitrine.
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