Teatro tropical
Quando nós tínhamos dezenove anos, um primo, grande amigo até hoje, me contou uma cena ocorrida em seu curso de Economia em uma conceituada universidade privada do Rio de Janeiro. Um professor, irritado naquele dia, fustigou a turma, acusando os alunos de serem “típicos filhos da alta burguesia carioca, alienados, indiferentes, fúteis, pouco aplicados nos estudos”. Essa terrível generalização provocou um silêncio. De repente, levantou-se uma aluna no fundo da sala. Com voz calma e tom de comiseração, ela explicou: “Professor, por favor...burguesia, não... a-ris-to-cra-cia”. Recebeu aplausos da maioria dos demais estudantes.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Ao ouvir o relato da cena, percebi a inutilidade de apego a tradições familiares. Quem se orgulha de origens elitistas deveria refletir na lógica segundo a qual quem emigra é porque não está muito bem de vida no país de origem – e no Brasil, salvo as pessoas de origem cem por cento indígena, não há quem não seja descendente de imigrante.
Chico Buarque resumiu a situação em 2023, ao receber seu Prêmio Camões concedido em 2019: “Como a imensa maioria do povo brasileiro, trago nas veias sangue do açoitado e do açoitador”. É igualmente supérfluo admirar títulos hereditários. Um conde, um príncipe, e mesmo qualquer monarca descendem de personagens que mataram, roubaram, espoliaram em séculos passados com mais violência do que seus contemporâneos e enriqueceram e elevaram-se socialmente às custas de seus crimes. A pátina do tempo opera milagres e os séculos criam a........
