A tirania da média, ou a aritmética da injustiça
Nos últimos dias, a propósito da polémica em torno da correção dos Exames Nacionais e das críticas dirigidas ao ministro da Educação, voltámos a ouvir as palavras habituais: equidade, justiça, mérito, igualdade de oportunidades. São os conceitos solenes com que se procura apresentar como justo o acesso ao Ensino Superior público.
A verdade é que não é assim. A meritocracia no acesso ao Ensino Superior público é uma fábula, um conto repetido de geração em geração para nos convencer de que o sistema é neutro, rigoroso e igual para todos; de que as classificações traduzem fielmente as capacidades de cada estudante; e de que aqueles que entram são necessariamente os mais aptos. Nada disso é verdade.
O sistema está formatado para selecionar aqueles que melhor se adaptam ao modelo de avaliação, não para identificar os estudantes com maior vocação, maior potencial ou melhores competências numa determinada área. Não escolhe necessariamente os mais capazes. Escolhe os mais classificáveis.
Aquela que é uma das decisões mais importantes no início da vida adulta, a entrada no Ensino Superior, não depende de um sistema justo, mas sim de uma operação aritmética que reduz três anos de desenvolvimento intelectual, pessoal e académico a uma média com casas decimais à qual se junta o resultado de um momento específico de avaliação. O que conta não é a vocação, nem a capacidade de raciocínio. Não é o potencial de evolução. Não é sequer, muitas vezes, o conhecimento efetivamente relevante para o curso pretendido. O que conta é a nota.
Naturalmente, as classificações têm uma função. As vagas são limitadas e é necessário estabelecer critérios de seleção. Também é legítimo exigir que os candidatos possuam determinados conhecimentos. O problema começa quando passamos a venerá-las como se fossem uma medição científica do mérito humano, ainda para mais quando em muitos casos, dessa média aritmética, para efeitos de frequência de um determinado curso, só contam a bem dizer um ou outra disciplina.
Uma classificação traduz o desempenho de um aluno numa determinada disciplina, segundo determinados critérios, num determinado contexto e, no caso dos exames nacionais, num determinado dia. Não traduz integralmente a sua inteligência, o seu talento, a sua vocação ou a sua capacidade para ter sucesso numa área científica ou profissional. Esta limitação torna-se........
