menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

“Um dia, hei de pegar ao guião”

19 0
23.03.2026

Na vila de Prado, quando a Quaresma chegava, o ar parecia mudar: nas ruas, já havia sinais de que aquele era ano de Passos; na catequese, falava-se mais da Paixão do Senhor; o sermão da tarde dava um colorido diferente a cada domingo; e, na torre da Igreja, o sino marcava as tardes com um peso e uma sonoridade diferentes. Era tempo de preparar a Procissão dos Passos, a mais antiga e solene tradição da terra. O João Carlos esperava por esses dias o ano inteiro e vivia cada um deles com uma intensidade inexcedível.

Desde pequeno, ficava à porta da igreja, de olhos bem abertos, a ver os homens alinhados, os andores enfeitados de flores roxas, os farricocos de rosto tapado, e, à frente, o guião, alto, imponente, balançando ao ritmo lento da procissão. Para ele, não era apenas um estandarte, era sim o coração da caminhada, o sinal de que a vila inteira seguia unida.

- “Um dia, hei de pegar ao guião”, dizia ele ao pai que o levava pela mão.

- “Terás de o experimentar, primeiro. Aquilo não é para qualquer um”, retorquia o pai que, apesar de fazer parte da Comissão dos Passos, nada prometia.

Levar o guião não era coisa pequena. Era preciso responsabilidade, força, presença, respeito. O guião não podia vacilar, não podia inclinar-se, não podia........

© Diário do Minho