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“Um dia, hei de pegar ao guião”

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23.03.2026

Na vila de Prado, quando a Quaresma chegava, o ar parecia mudar: nas ruas, já havia sinais de que aquele era ano de Passos; na catequese, falava-se mais da Paixão do Senhor; o sermão da tarde dava um colorido diferente a cada domingo; e, na torre da Igreja, o sino marcava as tardes com um peso e uma sonoridade diferentes. Era tempo de preparar a Procissão dos Passos, a mais antiga e solene tradição da terra. O João Carlos esperava por esses dias o ano inteiro e vivia cada um deles com uma intensidade inexcedível.

Desde pequeno, ficava à porta da igreja, de olhos bem abertos, a ver os homens alinhados, os andores enfeitados de flores roxas, os farricocos de rosto tapado, e, à frente, o guião, alto, imponente, balançando ao ritmo lento da procissão. Para ele, não era apenas um estandarte, era sim o coração da caminhada, o sinal de que a vila inteira seguia unida.

- “Um dia, hei de pegar ao guião”, dizia ele ao pai que o levava pela mão.

- “Terás de o experimentar, primeiro. Aquilo não é para qualquer um”, retorquia o pai que, apesar de fazer parte da Comissão dos Passos, nada prometia.

Levar o guião não era coisa pequena. Era preciso responsabilidade, força, presença, respeito. O guião não podia vacilar, não podia inclinar-se, não podia tremer. Representava a fé e a tradição de gerações inteiras que atravessavam os séculos e, por isso, o sonho do João Carlos não era de vaidade, mas de pertença.

Um ano passou e, depois, outro. Na escola, já não se ria quando alguém falava destes assuntos. Escutava com atenção as histórias do avô e, com apenas 15 anos, começou a treinar em segredo. Na serralharia onde trabalhava, arranjou um ferro do tamanho do guião. Colocava-se sério, endireitava as costas e caminhava devagar entre as máquinas e os ferros, imaginando as ruas cheias. Imaginava também o vento a soprar e apertava ainda mais os dedos, como via fazer ao homem do guião verdadeiro.

No dia aprazado, foi ver a “pegada do guião”. Sentado no adro, ao lado do avô, ouviu o pai a chamar por si, insistindo para que arriscasse. Com alguma resistência interior, resolveu experimentar e saiu-se bem! Era, contudo, ainda muito novo para assumir tal responsabilidade. Dois anos depois, fez de estacão e tudo apontava para que, na vez seguinte, fosse ele a tirar o guião e levá-lo na procissão.

No início da Quaresma do ano em que fez 19 anos, o João Carlos já sentia o coração a bater como o sino grande. Na segunda-feira da semana que antecedia os Passos, ao fim da tarde, apresentou-se na Igreja, com um sonho: tirar o guião maior, à primeira, sem recear nem hesitar. E foi isso que aconteceu, perante a admiração de todos e o aplauso de muitos. Escolhido para o levar na Procissão, não pensava noutra coisa. A responsabilidade e a ansiedade aumentavam à medida que o dia se aproximava. Tentava esconder a preocupação e a sua família fazia o mesmo em relação ao orgulho que sentia, mas, na proximidade, já ninguém conseguia disfarçar. 

Na noite anterior à Procissão, não pregou olho, antes ouviu e contou todas as badaladas com que o sino grande assinalava, de hora em hora, a presença do Senhor dos Passos naquele andor imponente e dourado, como só em Prado existe. Há muito tinha percebido que o sonho não era apenas segurar um estandarte. Era carregar a memória da sua terra. Era ser parte da Procissão que já vinha de trás e que continuaria por diante.

No dia da Procissão, a vila estava vibrante e o tempo soalheiro, mas ventoso. Quando a cruz saiu da Igreja e a banda de música começou a tocar, o João Carlos sentiu o peso verdadeiro do guião nas mãos. Era bem mais pesado do que o tubo de ferro da serralharia e até lhe parecia que pesava mais do que no dia em que o experimentou! O tecido movia-se com o vento, forçando-lhe os braços. As pernas queriam tremer, mas ele lembrou-se da serralharia e dos ferros alinhados como se fossem fiéis, do pai a observá-lo de perto e do avô, à noite, a contar-lhe histórias de anteriores e seculares Procissões de Passos.

Endireitou-se. Passo a passo, pelas ruas de Prado, levou o guião com firmeza, não perfeito, porque o vento não perdoa, mas digno. Quando regressou à Igreja, depois do banho iniciático na fonte de Santo António, o pai pousou-lhe a mão no ombro e disse-lhe:

- “Já sabes. O guião não se leva só com os braços. Leva-se com o coração”.

Realizado o sonho, deixou de pensar no assunto, mas, sempre que havia Passos, aí estava ele a dar continuidade à tradição. Começou, contudo, a alimentar um outro sonho: ensinar a arte a um filho que viesse a ter. 

Alguns anos depois, o menino nasceu e, num prenúncio de futuro, a família decidiu dar-lhe o nome do pai. Com apenas dois anos, quando começou a ter alguma noção das coisas, ao colo da mãe, em dia de Procissão de Passos, o Carlinhos destapou o rosto do pai e, dois anos depois, em idêntica circunstância, balbuciou uma das suas frases mais ambiciosas, que a todos deixou espantados e perplexos e que ainda hoje repete, com uma ambição e convicção cada vez maiores: 

- “Um dia, hei de pegar ao guião”.


© Diário do Minho