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Saibamos viver a Quaresma

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17.02.2026

Nesta semana começa a Quaresma. Este tempo litúrgico é precedido por alguns dias em que muita gente vive de uma forma diferente, procurando encontrar neles um divertimento rotundo, nem sempre o mais recomendável sob o ponto de vista ético, esquecendo todas as dificuldades que a vida nos faz enfrentar. Gozar esses tempos de um modo pleno, como se a nossa vida nos permitisse esquecer ou pôr de parte todas as contrariedades e sofrimentos que, no dia a dia normal, sempre temos de enfrentar, por vezes com um padecimento e uma dureza que nos faz sofrer.

Mas se o Carnaval pretende retirar o homem da sua existência sempre sujeita a contrariedades e padecimentos, durante um tempo curto do ano, fazendo-o esquecer de que a dor e o sofrimento fazem parte do seu dia a dia, a Quaresma surge com outra perspectiva diferente. O ser humano deve pensar em profundidade no sentido da sua existência, tendo como modelo alguém que veio a este mundo com uma missão: lembrar que esta vida não é compatível com a felicidade total, mas apenas um curto espaço passageiro, em que o sofrimento, a dúvida e o que se consegue realizar tem sempre um fim breve. Ou seja: a vida terrena não é o fim do ser humano, mas apenas uma etapa preparatória daquilo que só conseguirá alcançar após a sua morte. E, certamente, esse fim poderá ser de felicidade total se o seu comportamento for o de quem tem consciência de que a sua passagem por este mundo não é senão uma preparação da vida eterna, onde ele joga, na forma como orienta a sua conduta, o que depois da sua saída desta existência encontrará na eternidade: ou uma felicidade completa e inexcedível, ou uma ausência e carência total de alegria, um falhanço rotundo pela forma como geriu o seu quotidiano na terra.

A Quaresma relembra os tempos em que Jesus Cristo, Deus encarnado, preparou a sua vida pública, na qual, no final, ofereceu ao Pai a sua existência como resgate de todas as almas dos seres humanos, que, pela desobediência dos nossos primeiros pais ao que Deus lhes tinha indicado e aos pecados de todos os tempos, tinham fechado as portas do Céu. 

Se o homem, por si mesmo, não podia ascender ao Céu, Deus não esqueceu que a sua criação não tinha como objectivo uma felicidade parcial, mas total. Por isso, Ele mesmo, humanizando-Se, veio à terra oferecer o seu sacrifício redentor. A responsabilidade divina levou-O a voltar a dar ao homem a possibilidade de ascender a uma felicidade completa e total, embora essa reconquista custasse a Cristo, Deus humanado, o sofrimento injusto do Calvário. Lembramos que Jesus tem consciência absoluta e clara do que vai ser o seu sofrimento, quando, pouco antes da sua prisão, no Jardim das Oliveiras, volta a oferecer tudo o que o Pai Lhe pedir, embora com um custo fortíssimo: “Pai, se é possível, afasta de mim este cálice. Mas não se faça a minha vontade, mas a tua” (Mt., 26-43). 

Que a Quaresma nos sirva para aprender o valor da vontade divina, que tanto custou a Jesus enfrentar, mas que Ele aceitou plenamente, apesar das dores e humilhações tremendas da sua Paixão e Morte.


© Diário do Minho