Por Entre Linhas e Ideias
Ainda sabemos o que significa ter vergonha na cara? A pergunta surgiu-me hoje como mote para esta crónica ao assistir a situações que nos fazem corar, não por timidez, mas por desconforto perante atitudes que nada dignificam o humano. A expressão atravessa gerações e surge quando alguém ultrapassa o aceitável, quando a incoerência se torna visível e a responsabilidade é trocada por justificações. “É preciso ter vergonha na cara” não é apenas um desabafo, é um aviso de que nem tudo pode ser feito sem que algo em nós se incomode, mas cresce a sensação de que essa capacidade de corar está a desaparecer e que quase já não vemos quem se envergonhe numa cultura que tudo explica e raramente assume.
Lembro-me do professor Pereira Borges, quando eu era aluno do primeiro ano da Faculdade de Filosofia, ainda inseguro, a questionar-me sobre um tema e de eu perceber, enquanto respondia, que não estava à altura do que me era pedido. Senti vergonha, estava numa sala cheia de colegas, e corei. Ele olhou para mim e disse apenas: “Ainda bem que coras.” Na altura não percebi bem o que queria dizer, mas mais tarde........
