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Por Entre Linhas e Ideias

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19.02.2026

Ainda sabemos o que significa ter vergonha na cara? A pergunta surgiu-me hoje como mote para esta crónica ao assistir a situações que nos fazem corar, não por timidez, mas por desconforto perante atitudes que nada dignificam o humano. A expressão atravessa gerações e surge quando alguém ultrapassa o aceitável, quando a incoerência se torna visível e a responsabilidade é trocada por justificações. “É preciso ter vergonha na cara” não é apenas um desabafo, é um aviso de que nem tudo pode ser feito sem que algo em nós se incomode, mas cresce a sensação de que essa capacidade de corar está a desaparecer e que quase já não vemos quem se envergonhe numa cultura que tudo explica e raramente assume.

Lembro-me do professor Pereira Borges, quando eu era aluno do primeiro ano da Faculdade de Filosofia, ainda inseguro, a questionar-me sobre um tema e de eu perceber, enquanto respondia, que não estava à altura do que me era pedido. Senti vergonha, estava numa sala cheia de colegas, e corei. Ele olhou para mim e disse apenas: “Ainda bem que coras.” Na altura não percebi bem o que queria dizer, mas mais tarde compreendi que aquelas palavras eram um elogio discreto, porque corar significava que havia em mim consciência e que eu sabia distinguir entre falar por falar e responder acertadamente.

É precisamente aqui que importa clarificar o que significa ter vergonha na cara. Não se trata de ter medo do juízo público nem de viver dominado pela culpa, mas de reconhecer interiormente que falhámos. Aristóteles entendia a vergonha como uma emoção importante na formação do carácter porque revela sensibilidade moral e consciência do limite. Quem já não se envergonha dificilmente se corrige, pois a vergonha funciona como uma tomada de consciência ética antes que o erro se transforme em hábito.

Esta reflexão ganha força quando recordamos o que escreve o filósofo alemão Friedrich Hegel ao afirmar que “o que o homem é, ele o faz”, lembrando-nos que não somos aquilo que pensamos ser, mas aquilo que realizamos. Basta olhar para a vida pública e política, onde tantos proclamam ética e transparência enquanto as decisões desmentem os discursos, se defende a verdade e se praticam mentiras, se proclama a paz e se faz a guerra. À luz de Hegel, não conta o que se diz ser, mas o que efetivamente se faz, e quando a ação contradiz a palavra, a vergonha deveria surgir como sinal de consciência.

Curiosamente, esta ligação entre vergonha e comunidade já estava presente na mitologia grega. Os gregos personificaram a vergonha na figura de Aidos, símbolo do pudor moral e do respeito pelos limites. No diálogo Protágoras, Platão conta que, depois de Prometeu ter dado o fogo aos homens, estes eram incapazes de viver em comunidade porque se destruíam mutuamente. Zeus enviou então duas qualidades indispensáveis para a sobrevivência da cidade, a justiça e Aidos. Sem elas não haveria convivência possível e, quando a vergonha abandona a cidade, instala-se inevitavelmente a desordem.

Se deixarmos a mitologia e passarmos à filosofia, encontramos em Kant um pensador que oferece uma resposta clara a esta questão. No fundo, a sua proposta pode resumir-se numa regra simples que todos conhecemos, não faças aos outros o que não queres que te façam a ti na mesma circunstância. Agir eticamente é perguntar se aceitaríamos para nós aquilo que fazemos aos outros, porque condenar a corrupção e aceitar favores, exigir responsabilidade e fugir ao dever revelam a incoerência entre o que defendemos e o que praticamos, algo que só a vergonha pode corrigir.

Penso que os nossos leitores se têm apercebido de que o mundo atual favorece um certo adormecimento moral, onde a opinião imediata substitui a reflexão, a exposição dilui a responsabilidade e a crítica aos outros ocupa o lugar da autocrítica, criando uma situação em que quase tudo encontra justificação e cada vez menos nos faz corar. É precisamente aqui que a vergonha revela a sua dimensão mais profunda, porque só quem reconhece os próprios limites assume responsabilidade diante do outro. O filósofo judeu Emmanuel Levinas lembrava que “sou responsável pelo outro”, e foi isso que senti recentemente no funeral de um jovem de 18 anos que perdeu a vida pela doença, pois perante a dor imensa dos pais percebemos que todos nós somos poucos para ajudar a suportar a perda de um filho.

E por isso deixo aos nossos estimados leitores uma pergunta simples e direta:

- O que é que ainda nos faz corar e nos lembra que somos humanos?


© Diário do Minho