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Quaresma: um estímulo para a vida

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21.03.2026

Tive a ousadia de, durante a Quaresma, ir propondo aos possíveis leitores, na simplicidade da escrita e, muitas vezes, a partir da experiência pessoal, um itinerário de vivência quaresmal. Tudo partia de uma convicção: não descurar os tradicionais modos de penitência, mas ousar propor um projeto de seguimento de Jesus Cristo.

Verifico, na minha convivência eclesial e social, que existe uma grande sede de algo diferente que a Igreja nem sempre propõe de modo adequado. O mundo moderno necessita de referências, e o estilo de vida de Jesus ainda não se esgotou. Muitas vezes, será algo que vai contra as mentalidades correntes que, sobretudo, a comunicação social e a sociedade de consumo vão propondo e quase impondo.

Gosto imenso de meditar na chamada Carta a Diogneto. Trata-se de uma carta escrita por volta do ano 100. Não se sabe quem é o autor; sabe-se apenas que o destinatário é um pagão culto que deseja conhecer algo mais sobre o cristianismo, impressionado por essa nova religião que se espalhava, com força e vigor, pelo Império Romano.

Os estudiosos consideram-na “a joia mais preciosa da literatura cristã primitiva”. Não é aqui o lugar para a esmiuçar. Sumariamente, diz que os cristãos não se distinguem dos outros homens nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Há, porém, uma vida que os diferencia: são como a “alma espalhada por todas as partes do corpo” (o mundo). “São visíveis no mundo, mas a sua religião é invisível.” “Esta é a posição que Deus lhes determinou; e a eles não é lícito rejeitá-la.”

Vale a pena uma leitura do texto na íntegra. Hoje, pode ser considerado um espelho. Somos menos e poderemos ainda vir a ser menos, só que temos um lugar na história e não podemos fugir à responsabilidade que nos cabe.

São inúmeros os estudos sobre a situação da Igreja atual no contexto da modernidade. Elaboram-se relatórios e fazem-se sínteses. Disserta-se imenso e projeta-se muitíssimo. Sonham-se tempos novos, tornando a Igreja mais credível e valorizada. Só que isto nunca acontecerá sem cristãos que se assumam e peregrinem no mundo como peregrinos, mas com testemunho eloquente.

Cristãos verdadeiramente evangélicos são necessários para este mundo que quer viver “como se Deus não existisse”, mas que procura algo que só Deus lhe poderá dar.

Não sou pessimista, nem muito menos frustrado ou receoso do futuro. Estou persuadido – numa linguagem evangélica e com palavras de Cristo – de que urge “passar à outra margem” e pescar noutras águas. Teimar em repetir tradições e sublinhar apenas o rigorismo dos preceitos é percorrer uma estrada de fracassos e de desilusões, misturada com algum sentimento de frustração.

Sabemos, por outro lado, que o cristianismo só mostra o seu verdadeiro valor na comunidade. Não é uma religião de indivíduos que realizam solitariamente os seus projetos. Antes de mais, a renovação tem de partir de cada cristão. Sem uma vida pessoal de autenticidade evangélica, não haverá Igreja que manifeste, no seu ser e no seu agir, a veracidade da sua doutrina.

São eloquentes as palavras de Santo Agostinho: “Antes de mais sou cristão convosco e só depois bispo para vós.” Faltam-nos cristãos apaixonados pelo projeto de Cristo.

A Páscoa que se aproxima pode significar um acolhimento do sentido etimológico desta palavra. Ela significa passagem – da morte de Cristo para a vida –, mas pode e deve ser também aplicada aos cristãos e às comunidades que necessitam, igualmente, de efetuar uma passagem.

O Papa Francisco foi suficientemente eloquente quando dirigiu uma Exortação Apostólica Pós-Sinodal aos jovens e a todo o Povo de Deus (25-03-2019). Há um título que basta por si, mas que se completa com uma interpelação: “Cristo vive” e “quer-te vivo”.

Penso nos Apóstolos e vejo homens que se deixaram apaixonar porque tiveram muitos momentos de convivência com Ele. Cristo chamava-os à parte e detinha-se longamente com eles, explicando aquilo que antes comunicara sumariamente às multidões.

É esta viragem que a Igreja terá de fazer. Não desconsidero um cristianismo onde os preceitos e a moral são fundamentais. Mas, sem convivência com Ele, não existe a coragem do testemunho. Primeiro a vida com Ele e, depois, caminhando com todos, em articulação de esforços e harmonização das diferenças, um anúncio com uma nova linguagem.

Assim “navegaremos” seguros por caminhos novos, com ritmos certos e promissores.

Seguir os passos de Cristo é reconhecer que Ele foi único. Mas Ele iniciou o caminho. Hoje, interpretamos, em gestos, comportamentos e palavras, o Seu agir. Será diferente de ontem, mas com a mesma novidade.


© Diário do Minho