O Estado que já não sabe fazer nem sabe comprar
Há uma erosão lenta e sistemática da capacidade do Estado para pensar os seus próprios sistemas, nomeadamente para os arquitetar, avaliar, gerir e sobretudo entender. Não falamos da falta de dinheiro, nem de tecnologia, falamos do desaparecimento, dentro do aparelho público, de quem saiba fazer as perguntas certas antes de assinar os contratos.
Durante décadas, construiu-se a ideia confortável de que o Estado não precisa de saber fazer, mas apenas de saber comprar. Esvaziaram-se departamentos, extinguiram-se carreiras técnicas, deixou-se envelhecer sem substituição uma geração de arquitetos de sistemas e gestores de projetos que detinha, dentro de portas, o conhecimento sobre o que funciona e o que falha. Foi uma sequência de pequenas renúncias que produziu, no final, um Estado que já não sabe verificar aquilo que manda construir, porque delegou o seu saber e também a sua soberania.
A crise dos exames nacionais de 2026 é o retrato mais nítido desta abdicação. Desde 2023, o instituto responsável pela desmaterialização das provas assinou dezasseis contratos, num montante superior a sete milhões de euros e ainda assim quando o sistema colapsou, o próprio ministro precisou de duas semanas para revelar que existiam duas plataformas distintas geridas por entidades diferentes, uma delas a cargo de uma empresa privada externa. Não é falta de investimento, é falta de arquitetura própria.
Perante o caos, o Ministério chamou uma consultora........
