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A herança de António da Cunha Telles

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24.04.2026

Estreado esta semana nas salas de cinema, Cherchez la Femme, derradeiro filme de António da Cunha Telles (1935-2022) é um verdadeiro óvni. Por ser um filme póstumo? Sim, é um facto: o realizador trabalhava na respetiva pós-produção quando faleceu, tendo sido finalizado por Pandora da Cunha Telles, sua filha, e André Rosa Carvalho. O certo é que essa condição póstuma está longe de ser um dado essencial para lidarmos com a sua estranha, porventura incómoda, sedução.

Sentimos a tentação de encerrá-lo na categoria dos “filmes-testamento”, o que talvez seja inevitável: o fecho de um ciclo temporal tende a favorecer a ideia de que o silêncio brutal da morte se transfigura numa “mensagem” capaz de transcender as fronteiras do tempo. Ainda assim, semelhante hipótese satisfaz-se com um enquadramento fúnebre que não esgota, longe disso, o insólito misto de tragédia e sarcasmo que percorre todos os momentos de Cherchez la Femme.

Afinal de contas, nestes tempos de narrativas deterministas, limitadas às vulgaridades do politicamente correto, procurando a consagração dos sempre disponíveis moralismos televisivos, quem se lembraria de adaptar A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro? Quem arriscaria revisitar esse texto de 1914, enredado nas atribulações de um amor infinitamente ambíguo, exuberante e suicidário? Mais ainda: quem ousaria pôr em cena uma sexualidade alheia ao moralismo das fronteiras de género em que o nosso pobre século XXI se debate, para mais celebrando a figura de uma mulher que, decididamente, pertence a uma galeria ancestral de figuração (e celebração) do feminino?

Pois bem, Cunha Telles fez tudo isso. Não para satisfazer a moda da provocação (que, em muitos casos, passou a ser sinónimo do mais medíocre conformismo político), muito menos à procura de qualquer atualização “temática” de Mário de Sá-Carneiro. Antes porque as aventuras e desventuras de Lúcio (Ângelo Rodrigues), Ricardo (Romeu Costa) e Marta (Joana Barradas) preservam, muito para lá do tempo em que foram escritas, um gosto de romance, ou melhor, um impulso romanesco.

O que é o romanesco? Longe de qualquer definição científica, digamos que o romanesco existe como “aquilo” que abraça o impulso de morte que contamina todas as células do romantismo, ao mesmo tempo que dele se distancia através da ironia erótica e da irrisão dramática. No limite, Cunha Telles oferece à escrita de Mário de Sá-Carneiro a mais cândida materialização cinematográfica, relançando a pergunta: naquele intrigante triângulo amoroso, Marta é a encarnação perfeita de um ideal feminino ou o fantasma de um delírio masculino? A pergunta multiplica-se num puzzle sempre incompleto, com as possíveis respostas suspensas num nevoeiro de ternura.

Realizador de O Cerco (1970), uma das “bandeiras” do Cinema Novo português, produtor de alguns dos seus títulos emblemáticos como Os Verdes Anos (Paula Rocha, 1963), Belarmino (Fernando Lopes, 1964) ou Domingo à Tarde (António de Macedo, 1966), Cunha Telles deixa-nos, assim, uma herança singular que não se aquieta no congelamento cultural do nosso mundo de telenovelas, futebol e Reality TV. Ou como esclarece o Lúcio de Mário de Sá-Carneiro, o seu “crime passional” resume-se através de uma expressão romanesca: “Cherchez la femme”. Tanto pior se já quase ninguém sabe falar francês.


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