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A democracia morre quando não consegue conversar

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16.03.2026

No sábado passado morreu Jürgen Habermas, um dos últimos grandes filósofos europeus. Habermas mostrou que não bastam constituições, eleições ou tribunais para garantir legitimidade democrática. Para que exista democracia, dizia ele, é necessário diálogo sobre a forma como a sociedade se organiza, entre pessoas que discordam das propostas que estão sobre a mesa.

Segundo Habermas, é no espaço público, feito de jornais, parlamentos, redes de associações, universidades e, hoje, também plataformas digitais, que as sociedades formam opiniões e vontades coletivas. A promessa democrática é exigente e as decisões só são verdadeiramente legítimas quando podem ser aceites, com entusiasmos ou resignação, por todos os afetados, após processos de debate em que conta a força do melhor argumento, não a força do dinheiro, do cargo ou da máquina de comunicação.

Esse ideal de racionalidade comunicativa não é uma descrição ingénua de uma realidade desejada, mas um critério para criticar quem se recusa a participar num debate público racional. Hoje, porém, a distância entre o ideal e a prática parece transformar-se num abismo intransponível. O populismo contemporâneo organiza a política não como confronto de argumentos, mas como choque de identidades. Em vez de adversários com quem se discute, aponta-se o dedo a inimigos a derrotar. Em vez de deliberação, temos mobilização emocional permanente.

As redes sociais aceleram este processo. A lógica dos algoritmos recompensa a indignação, a simplificação e o escândalo. A esfera pública, que Habermas imaginou como um espaço comum de debate, fragmenta-se em bolhas onde circulam narrativas incompatíveis, dados alternativos e suspeitas mútuas. Falamos mais do que nunca, mas ouvimo-nos cada vez menos.

O próprio Habermas descreveu este risco lembrando que quando a lógica do poder, do lucro ou da manipulação invade a comunicação quotidiana, o diálogo orientado para o entendimento é substituído por estratégias de influência. As instituições permanecem, mas perdem o chão comum que as sustenta. Cresce a desconfiança, banaliza-se a acusação de “fake news”, a ideia de verdade factual torna-se suspeita e a ciência inútil.

Recordar Habermas, neste contexto, não é apenas um gesto de justiça para com um dos grandes pensadores do nosso tempo. É também relembrar que a defesa da democracia começa antes do voto e vai além do xadrez entre governos e oposição. Começa na forma como falamos uns com os outros, na disposição para justificar posições, reconhecer factos incómodos e rever opiniões à luz de melhores argumentos.

Essa confiança no poder emancipador da palavra pode parecer frágil na era do cinismo e do espetáculo político. Mas talvez seja a última base comum que ainda podemos partilhar numa sociedade plural. A pergunta que Habermas nos deixa é simples: queremos viver em regimes que decidem pela força de maiorias momentâneas, alimentadas pela manipulação e pelo ruído? Ou queremos viver em democracias que ainda tentam decidir o nosso futuro comum pela força do melhor argumento? Como dizia um ex-Embaixador americano na ONU, “temos direito às nossas opiniões, mas não temos direito aos nossos factos”.


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