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Manuel Alegre. A casa da poesia

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27.04.2026

"Vêm de longe os corsários / sem pressa para atracar / navegadores solitários / na grande casa do mar. // Já sem terras para achar / já perdidas as conquistas / navegam a procurar / as paisagens nunca vistas. // Corsário é aquele que está / onde parece não estar / o que busca o que não há / e outro mar em cada mar (…)” (p.69).

É este o poema que dá título ao mais recente livro de poemas de Manuel Alegre, Balada do Corsário dos Sete Mares (Dom Quixote), um livro breve que, constituído por oito secções, adquire uma importância axial no conjunto da obra poética de Alegre pelo que nestes poemas há de revisitação de tempos antigos, os quais são, na essência, tempo poéticos, releituras da tradição literária, seja ela a camoniana – o mais perene poeta da tradição camonista é Manuel Alegre, fidelíssimo a esse eco da épica na lírica – ou a mirandina, pelo que de sol negro da melancolia existe em muitos passos deste belo e singelo livro.

“Quatro Poemas”, assim começa este volume. Logo o poema de abertura nos coloca perante o sinal da homenagem: são poemas dedicados a Nuno Júdice (1949-2024), primeiramente publicados na revista que Júdice então dirigia, em 2022, a Colóquio-Letras. Transplantados para este livro, estes quatro poemas de elegíaca toada – apesar da frase coloquial e o registo familiar-corrente – como que definem o desenho do livro, a sua música, a sua arquitectura: “Não tires o caderno do fundo da mochila / as águas invadem as ruas / arrasam casas / pontes desmoronam-se. / Há palavras a boiar na boca das pessoas / cães a uivar em cima dos telhados / uma criança segura um papel em branco / não tires o caderno da mochila / tudo está dito naquele papel em branco.” (p.11).

A conversa com um tu-destinatário que é prosopopeia de um........

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