Carta ao Presidente da República: salvar a democracia exige salvar o ensino público
Exmo. Senhor Presidente da República Portuguesa,
Professor António José Seguro,
Escreveu Antero de Quental (1842-1891) que “a nossa fatalidade é a nossa história”, referindo as causas da nossa decadência na sua célebre conferência de Junho de 1871, aquando das Conferências Democráticas do Casino Olissiponense. Igualmente Eça de Queirós (1845-1900) e, depois destas figuras de proa da Geração de 70, Fernando Pessoa (1888-1935), constatavam ser a Educação o nosso problema irresolvido. “A civilização fica-nos curta nas mangas”, eis uma das teses centrais de Os Maias (1888). A par dessa tese, uma outra: “Carlos falhou na vida, não por causa, mas apesar da Educação.” Diletante e dândi, romântico e corrompido pelo luxo, Carlos simboliza as elites doentes de provincianismo desse Portugal de oitocentos, esse “reino à esquina do planeta”, escreveu António Nobre (1867-1900). Para Pessoa era falta de um escol político ilustrado, a falta de elites que pensassem o país fora dessa camisa-de-forças do país sempre fascinado com o que vem do estrangeiro, a doença a extirpar. A doença do provincianismo, eis um problema mental em relação ao qual não encontrámos ainda a terapêutica adequada. Fascinado com Franças e Inglaterras, com Alemanhas e americanices, foi através de modas que construímos a manta de retalhos que é a escola pública e a Universidade em Portugal.
No discurso político sei bem, Senhor Presidente, que quem critica as políticas que emanam deste ou daquele governo passará sempre por ser um Velho do Restelo, ainda que, como sabe, esse Velho represente o catálogo de saberes, um “saber de experiências feito” que não se deixa fascinar com as modas e os modismos do tempo. Camões imaginou-o conselheiro dos mais novos que, embriagados pelo novo e sedentos de fama, encaminhavam o país para a mais vil das existências. Ninguém ouve, hoje ainda, os Velhos do Restelo e é pena: sacrificamos sempre o bom senso em nome de ousadias........
