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“Vezeira”

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18.07.2026

Vento que passas, leva-me contigo. Sou poeira também, folha de outono. Rês tresmalhada que não quer abrigo no calor do redil de nenhum dono. Leva-me, e livre deixa-me cair no deserto de todas as lembranças, onde eu possa dormir como no limbo dormem as crianças. Miguel Torga Estou na mesa com os meus pais. Há muito tempo que não estava. A vida consegue vergar-nos de espanto consoante a diabrura do tempo. A meio da refeição, o pai solta a notícia que a vezeira acabou na aldeia. Havia três ou quatro que insistiam em trabalhar em conjunto. Do nada, tudo verteu para o vazio. Há um silêncio na mesa. Alguém pega numa garrafa para verter o vinho. Do outro lado, uma terrina de alfaces. A minha mãe não consegue falar. Sabe bem que é um dos últimos tesouros da aldeia. Um cheiro que esventra ruas e vielas. Que exigiu pedidos a quem de direito. E agora? Sinto o perfume da urze sem ser apalpada. As ruas parecem limpas sem o fedor que invadia as narinas de quem esperava a rês ou de quem apreciava o movimento bucólico da chegada. A vezeira irá morar em mim para sempre. Tenho episódios fantásticos. Alguns de ternura, outros de aguilhoamento. Tive animais incríveis. Inesquecíveis. Aqueles que perfuram a mente em doçura. Que respondem pela brandura quando........

© Correio do Minho