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“Os moletinhos e a alma de Braga: ...”

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19.03.2026

Aidentidade de uma cidade não se cristaliza apenas nos seus monumentos de pedra ou nas datas magnas da sua fundação; faz-se, sobretudo, através de processos lentos, acumulativos e muitas vezes discretos, que se infiltram no quotidiano e na memória coletiva. No domínio da alimentação, essa evidência torna-se particularmente clara: as especialidades culinárias que hoje identificamos como “tra- dicionais” raramente surgem de forma abrupta. Elas resultam, antes, da sedimentação de práticas, saberes e gostos que se transformam ao longo do tempo. É neste quadro de evolução constante que devem ser entendidos os moletinhos, um doce hoje indissociável da identidade bracarense e do ritual do Dia do Pai. O Rigor da História contra a Tentação do Mito Do ponto de vista historiográfico, importa estabelecer uma baliza temporal clara: os moletinhos afirmam-se como uma iguaria de referência em Braga entre o final do século XIX e o século XX. É fundamental resistir à tentação de lhes atribuir uma origem remota ou uma genealogia conventual direta, uma vez que não existem, até ao momento, fontes que permitam recuar a sua formulação concreta a períodos anteriores. No entanto, este rigor científico não empobrece a narrativa; pelo contrário, permite-nos observar como uma comunidade é capaz de construir e consolidar um património cultural sólido e credível. Contudo, datar uma receita não equivale a isolar um fenómeno cultural. A doçaria urbana que se consolidou em Braga nestes últimos dois séculos não nasceu do vácuo; desenvolveu-se sobre um terreno histórico profundamente preparado por séculos de familiaridade com preparados doces e saberes transmitidos entre espaços religiosos e civis. O Manuscrito 142: A Raiz do Saber e a Saúde no Prato Para compreender a profundidade da cultura alimentar de Braga, é incontornável olhar para o Manuscrito n.º 142 do Arquivo Distrital de Braga, datável do século XVI. Este documento revela uma conceção integrada da vida material da época: cozinhar, curar e cultivar eram atividades inseparáveis. As receitas culinárias aí registadas não visavam apenas o prazer da mesa, mas possuíam frequentemente funções dietéticas, terapêuticas ou preventivas. Historicamente, os preparados doces ocuparam um espaço ambíguo entre o alimento e o remédio. O açúcar, os ovos, as especiarias e os frutos eram valorizados pelas suas qualidades energéticas, conservantes e restauradoras. Essa lógica atravessa séculos e ajuda a ex- plicar a centralidade da doçaria na vida urbana por- tuguesa e, especificamen- te, na bracarense. Com as transformações sociais do século XIX — nomeadamente a extinção das ordens religiosas — muitos destes saberes migraram dos conventos para o espaço civil. A doçaria deixou de ser um privilégio dos claustros para integrar plenamente a economia urbana, através de oficinas, pastelarias e cozinhas familiares. A Consolidação de uma Tradição Moderna Os moletinhos devem ser lidos à luz dessa transformação histórica. São o produto de uma cidade já moderna, com circuitos co- merciais próprios, mas herdeira de uma longa familiaridade com a produção de doces. A sua consolidação não resulta de uma tradição imemorial, mas de uma herança cultural reinterpretada, adaptada aos gostos, ritmos e sociabilidades dos séculos XIX e XX. A obra "Do Arquivo para a Mesa", promovida pelo Arquivo Distrital de Braga, demonstra bem como os arquivos permitem compreender estes processos. Longe de serem meros depósitos de documentos, eles revelam práticas, continuidades e contextos que ajudam a explicar o presente. No caso da doçaria, mostram que o património imaterial não vive apenas da oralidade, mas também da escrita, da experimentação e da adaptação. Braga Memória #25: O Saber que Sai à Rua Hoje, este património não se fecha nos depósitos. No âmbito do ciclo Braga Memória #25, a Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva (BLCS) assume o desafio de levar este conhecimento histórico ao encontro dos cidadãos. Ao assinalar esta iguaria dedicada ao Dia do Pai na histórica Pastelaria A Favorita, a BLCS pretende levar o conhecimento e a tradição à rua, evocando o património imaterial no seu cenário mais autêntico. Reconhecer os moletinhos como património cultural imaterial não implica mitificá-los, mas sim compreendê-los como a expressão de uma identidade ur- bana construída ao longo do tempo, onde passado e presente dialogam. Quando olhamos para as vitrines de Braga neste dia, vemos mais do que um doce; vemos a imagem de São José ladeada por esta massa dourada e fofa, testemunhando o encontro entre o manuscrito e a memória, entre o arquivo e a mesa. Os moletinhos contam uma história que é, acima de tudo, a história de Braga: uma cidade que honra os seus arquivos, mas que não prescinde de levar a sua cultura ao balcão de uma pastelaria, celebrando a vida e a família com o rigor de quem sabe de onde vem Recomendo que a imagem enviada seja colocada em destaque ao lado da secção "Braga Memória #25", reforçando a ligação entre o santo e a tradição viva da Pastelaria A Favorita.

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