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“A dinâmica da guerra da Ucrânia...”

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25.02.2026

Ao quarto ano de guerra, a Ucrânia deixou de ser apenas um campo de batalha. Tornou-se o epicentro de uma disputa sobre o futuro da ordem internacional, da coesão europeia e da própria credibilidade do sistema transatlântico. A dinâmica belicista revela uma ideia comum. A guerra já não se decide apenas nas trincheiras do Donbass, mas nos parlamentos ocidentais, nas urnas norte-americanas, e na capacidade europeia de assumir responsabilidades estratégicas. Um verdadeiro teste à resistência militar de um Estado, à coerência política das democracias ocidentais e à própria estabilidade da ordem internacional construída após o fim da Guerra Fria. Uma realidade desconfortável, porque ninguém está verdadeiramente a ganhar, com a sua dinâmica. Todos enfrentam custos crescentes, e o tempo tornou-se o principal campo de batalha. No plano militar, a guerra entrou numa fase claramente sistémica. As expectativas iniciais de campanhas rápidas, deram lugar a uma lógica industrial de desgaste e de um “conflito de atrito”. Onde a logística, a produção de munições, a inovação tecnológica e capacidade de adaptação, contam mais do que conquistas territoriais imediatas. A incursão ucraniana em território russo simboliza essa transformação estratégica. Não se trata de ocupar cidades ou redesenhar fronteiras a curto prazo, mas de obrigar Moscovo a dispersar forças, proteger infraestruturas e aceitar que a guerra já não pode ser confinada à narrativa de “operação externa”. Simultaneamente, a Rússia mantém vantagens estruturais e difíceis de ignorar. Maior reserva humana mobilizável sem princípios éticos, produção militar sustentada e uma tolerância política interna, com custos sociais que, dificilmente encontraria paralelo nas democracias liberais. A guerra de drones, a artilharia de precisão e as operações de saturação tecnológica, mostram como o conflito evoluiu para um laboratório militar a céu aberto. Nenhum dos lados possui supremacia aérea, suficiente para romper decisivamente as linhas adversárias, o que prolonga o impasse e aumenta exponencialmente as perdas humanas. Contudo, reduzir a guerra à dimensão operacional seria um erro. O quarto ano do conflito demonstra, que o verdadeiro centro de gravidade do conflito, se deslocou para fora do campo de batalha. A Ucrânia combate simultaneamente em duas frentes. Uma nas trincheiras e outra nas agendas políticas dos seus aliados europeus e dos EUA. A crescente incerteza em torno do apoio norte-americano ilustra essa realidade. A instrumentalização eleitoral da política externa, decisões estratégicas em variáveis domésticas. A possibilidade de negociações rápidas. impostas por pressões políticas externas, introduz uma questão incómoda. Até que ponto a paz pode ser alcançada sacrificando princípios fundamentais, como a soberania territorial. Uma solução rápida poderá reduzir o sofrimento imediato, mas corre o risco de legitimar a alteração de fronteiras pela força. Um precedente particularmente perigoso, para a segurança europeia, e para a ordem mundial, em face das tendências expansionistas das grandes potências e de outros reajustes regionais. Este dilema, expõe também fragilidades profundas da Europa. Durante décadas, o continente habituou-se a uma arquitetura de segurança garantida externamente. A hesitação inicial no fornecimento de armamento à Ucrânia, marcada por longos debates políticos. Enquanto a realidade tecnológica da guerra evoluía rapidamente, revelou uma dependência estratégica difícil de negar. O conflito no Donbass tornou-se, assim, não apenas uma luta ucraniana, mas um espelho das limitações europeias em assumir plenamente a sua própria defesa. Perante a diplomacia da força totalitária da Rússia. Paradoxalmente, a narrativa da vitória russa também enfrenta sérios obstáculos. Os objetivos iniciais, da rápida tomada de Kiev e a neutralização política da Ucrânia, falharam de forma evidente. Quatro anos depois, a existência de um Estado ucraniano funcional, com identidade nacional reforçada e apoio internacional significativo, representa um fracasso estratégico difícil de ocultar. O enorme custo humano suportado pela Rússia, associado a ganhos territoriais limitados, demonstra que a lógica do desgaste não garante necessariamente resultados políticos claros, que só uma autocracia consegue sustentar. Ainda assim, seria uma ingenuidade, interpretar o impasse como sinal de derrota iminente do Kremlin. Pois, os regimes autoritários possuem frequentemente maior capacidade para prolongar conflitos, controlar narrativas internas e absorver perdas sem contestação pública significativa. O tempo pode funcionar como uma arma estratégica da Rússia. Apostando no cansaço das sociedades ocidentais, e na fragmentação política dos aliados de Kiev. É precisamente neste ponto, que o papel dos media se torna central. A narrativa da resistência ucraniana, reforçada por imagens de soldados e cidades destruídas, constrói empatia e mobilização moral. Contudo, qualquer enquadramento mediático implica escolhas. A ausência de múltiplas perspetivas ou a personalização excessiva do debate em torno de figuras políticas específicas, pode simplificar uma realidade estruturalmente complexa. A guerra envolve a história pós-soviética, segurança energética, rivalidades entre grandes potências e modelos políticos concorrentes. Elementos que não cabem facilmente em dicotomias morais absolutas. O maior risco do quarto ano não é uma derrota militar imediata de qualquer dos lados, mas um colapso gradual da coerência política internacional. Ataques logísticos, fadiga social, hesitação diplomática ou ruturas na cadeia de apoio, podem produzir efeitos em cascata capazes de alterar rapidamente o equilíbrio. Nesta perspetiva, a guerra na Ucrânia tornou-se um referendo silencioso, à capacidade de as democracias sustentarem compromissos prolongados. O preço de continuar a apoiar Kiev é elevado. Mas o custo de aceitar que a força pode redefinir fronteiras revelar-se-á incomparavelmente maior. Entre o desgaste e a responsabilidade histórica, a Europa enfrenta talvez a sua decisão estratégica mais difícil desde o final do século XX.

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