“Fortes, fracos, valentes e cobardes”
Falando de amor, Caeiro diz que, se não vir a sua amada, pode sempre imaginá-la e, ao fazê-lo, é forte como as árvores altas. Se porventura a vê, treme, e perde força, até que esta o abandona. Percebemos que o poeta se refere a uma força seminal, tanto psicológica quanto física. E é esse, efetivamente, o sema de "forte" e "força" existente já no "fortis" latino e que Deus origem a um conjunto extraordinário de palavras do nosso léxico, ora em forma nominal, ora adjetival. O tempo, porém, é o mestre da derivação semântica, nem sempre facilmente explicável, nem sempre tangível. Mas factos históricos ajudam à compreensão. Porque chamamos "forte" a um lugar que se pretende inexpugnável, se não pensarmos em rudeza e resistência, características do contexto militar? E porque houve a necessidade da "fortificação", se não, talvez, para distinguir nome e adjetivo, substância e qualidade, ou para validar as categorias instáveis da gramática? Gramática à parte, a verdade é que se os fortes se mostram no peito, no intelecto, na moral e no espírito, fazem-no comparativamente à custa dos flácidos, que os há por aí aos magotes, peganhentos, escorregadios, especialistas da lambidela de botas e de sapatos de verniz. Por definição e natureza, o flácido é fraco, possui braços raquíticos na zona da ética e da moral. Por exemplo, não se sabe se o rei Fernando era flácido, mas de Camões recebemos a ideia de que era fraco, e que transformava os fortes portugueses em pequenos e coitadinhos. O que me deixa admirado, pois, desde que descobri as barbudas (uma das moedas fernandinas), fiquei com a ideia de ser Fernando um rei conquistador, gritando em sela desde a Corunha a Celanova. Dito assim, um rei pode ser "flaccus", origem de "flácido" e "fraco", mas pode tentar conquistar Castela. Outra coisa são os valentes e os cobardes. Relativamente aos primeiros, desde que li o canto V da epopeia camoniana e contactei com a figura jactante do Fernão Veloso, fiquei convicto do seminal ethos heroico do "bom povo português". O poeta fez tudo para ridicularizar jurando falar verdade, e até ofereceu ninfas como prémio amoroso aos grandes conquistadores, incluindo o Gama. Seria o Veloso forte, ou pelo contrário flácido? A sua jactância põe-me em dúvida, e desde aí duvido solenemente de todos os valentes, incluindo governantes e desgovernados. Meti na cabeça a imagem do outeiro que é melhor de descer que de subir e não consigo sair dela: Portugal deixou de ter valentes e a valentia é traço semântico a ser puxado à corda por cinquenta cavalos. Mas os cobardes, ah, esses, e a cobardia, ah, essa, andam por aí aos pinotes. Num mundo enlouquecido em que a vida vale menos que dois cêntimos, em que os valores do amor, da bondade e da coragem se dissolvem em rios de sangue que ninguém consegue suster, compreendo finalmente Montaigne e a sua afirmação de que a cobardia é a mãe da crueldade. Onde, no mundo, onde em Portugal, estão os valentes? No centro da crueldade, sabemos onde estão os cobardes, os que, na hora da decisão heroica, metem o rabo entre as pernas, trementes de medo ou de enxovalho. Poderão os "fortes" armar-se em valentões, de bombas na mão e ameaçando os "fracos". Desta valentia, estou certo, nunca falarão os poetas. É tudo uma questão de tempo: a História registará muito bem quem são os ridículos Velosos e onde medrará a grotesca jactância.
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