“A poesia não conhece fronteiras:...”
Há livros que nos chegam como quem atravessa um rio sem fazer ruído. “Curros e Junqueiro: a liberdade e o espírito”, de Henrique Manuel Pereira e Lourdes Macei- ras, é um desses casos — e merece ser lido com tempo, como quem escuta uma conversa antiga que ainda tem muito a dizer ao presente. Recomendo-o desde já, sem reservas. Não apenas pelo rigor com que aproxima Manuel Curros Enríquez e Guerra Junqueiro, mas pela forma como nos lembra algo que tantas vezes esquecemos: as fronteiras são, quase sempre, mais frágeis do que parecem. Talvez por isso este livro não se limite a falar de dois poetas. Fala, antes, de um espaço partilhado — uma espécie de território invisível onde Galiza e Portugal se encontram há séculos, não por decreto político, mas por afinidade cultural, por memória e por palavra. Curros e Junqueiro são, nesse sentido, menos dois nomes isolados e mais duas vozes de um mesmo coro. Há neles uma inquietação comum, uma urgência que atravessa o tempo. Escrevem como quem não aceita o mundo tal como ele é. Denunciam, questionam, incomodam. E fazem-no com uma intensidade que hoje, habituados a discursos mais mornos e vazios, ou, do outro lado da balança, estupidamente radicais, quase nos surpreende. A poesia, para ambos, não era ornamento — era intervenção. Ao longo das páginas, vamos percebendo que esta proximidade não é um acaso curioso da história literária. É, antes, o reflexo de contextos semelhantes, de sociedades em ebulição, de momentos em que escrever era também um ato de coragem. A liberdade de que falam — e que os autores tão bem sublinham — não é apenas política. É também uma liberdade interior, espiritual, quase existencial. E é aqui que o livro ganha outra dimensão. Porque, mais do que revisitar o passado, obriga-nos a olhar para o presente. Num tempo em que as fronteiras voltam a ocupar o centro do debate — sejam elas geográficas, culturais ou mentais —, esta leitura recorda-nos que o diálogo entre povos nunca deixou de existir. Apenas mudou de forma. Penso nisso ao imaginar o Minho não como linha de separação, mas como lugar de passagem (mesmo que já tenha escrito isto muitas vezes, desculpem, leitores). Quantas ideias, quantos versos, quantas inquietações terão cruzado essas margens sem deixar rasto visível? Curros de um lado, Junqueiro do outro — e, no entanto, tão próximos naquilo que verdadeiramente importa. Talvez seja essa a maior força deste ensaio: mostrar que a literatura não respeita fronteiras porque nasce precisamente daquilo que nos une. E que, mesmo quando escrita em línguas irmãs, carrega uma identidade comum difícil de fragmentar. No fim, ficamos com a sensação de que estas relações transfronteiriças não são uma curiosidade histórica, mas uma herança viva. Algo que continua a pulsar, ainda que por vezes em surdina. E talvez por isso valha tanto a pena ler este livro. Porque, no meio de tantas divisões contemporâneas, ele lembra-nos, com a serenidade de quem sabe, que houve — e há — sempre pontes. E que algumas, das mais sólidas e verdadeiras, foram feitas de palavras.
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