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A vida em um país democrático

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26.03.2026

Prisão domiciliar humanitária para quem sempre atacou os direitos humanos e faz veementes críticas às garantias fundamentais dos que estão atrás das grades. "O cara tem de entender que, uma vez preso, o direito dele é não ter direito. E as cadeias no Brasil são uma maravilha", já bradou o agora contemplado com uma medida humanitária.  

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O mesmo que vociferou: "Tenho nojo da palavra direitos humanos neste país, nojo"; "conosco não haverá essa politicagem de direitos humanos"; "desserviço ao nosso Brasil".

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O defensor de bandido bom é bandido morto também classificou direitos humanos de "esterco da vagabundagem". "Você, quando comete um crime, tem de pagar por ele. Não é para ir a um spa"; "tem gente com pena de presidiário, lá é o lugar de o cara se ferrar, o lugar de o cara pagar os seus pecados".

E afirmou que "a cadeia é um lugar muito democrático, tem de fazer muita besteira para estar lá dentro". Como tentar um golpe de Estado? Passível de prisão, sim, já mostrou o Supremo Tribunal Federal (STF) — agora, aparentemente, flexível com quem atentou contra a democracia e liderava uma organização criminosa armada.

Comiseração para com infratores da lei? O condenado por golpe sempre foi contra: "Bandido tem que apodrecer na cadeia. Se cadeia é lugar ruim, é só não fazer a besteira que não vai para lá. Vamos acabar com essa história de ficar com pena de encarcerado. Quem está lá fez por merecer".

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Bastou, porém, ser trancafiado que até o barulho do ar-condicionado considerava tortura — justo ele, um entusiasta de métodos violentos de repressão: "Eu sou favorável à tortura"; "o erro da ditadura foi torturar e não matar"; "só vai mudar, infelizmente, se um dia nós partimos para uma guerra civil aqui dentro e fazendo o trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil".

A prisão domiciliar também é um triunfo da prole do sentenciado, que protestou, reiteradas vezes, pela dignidade humana do pai, mas ridicularizou benefícios a outros presidiários. Um dos filhos já disparou: "Políticos corruptos têm alegado problemas graves de saúde para saírem da cadeia. Você é a favor de cemitérios ao lado das carceragens da Polícia Federal para que o Estado gaste menos com o transporte dos corpos?". Outro, não ficou atrás: "Dá para levar a sério um país onde existe prisão domiciliar? O condenado é carcereiro dele mesmo. Se não conseguem nem monitorar as tornozeleiras eletrônicas, quem dirá cada preso em seu domicílio. A lei de execuções penais e CPP precisam ser revisados urgentemente." Pois é.

Nada como a democracia para garantir direitos fundamentais. Mas o benefício concedido pelo STF nesta semana é seletivo — um sem-número de outros criminosos doentes, porém anônimos, não desfrutam dessa prerrogativa. Ao menos, há data para acabar.

Espera-se que, decorridos os 90 dias, o custodiado deixe a mansão e volte à cadeia para continuar a cumprir pena pela ofensiva contra o Estado de Direito, o que já é um lucro para ele, pois as barbaridades que cometeu durante a pandemia da covid-19, essas seguem impunes.

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Formada no Ceub, com passagem pelo Jornal de Brasília. Jornalista do Correio Braziliense desde 1998.


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