Enquanto as pandorgas singram os céus...
No final da tarde, da varanda de casa, contemplo o céu.Simone de Beauvoir certa vez afirmou: “O inconsciente não tem idade”. Penso nessa frase enquanto ergo o nariz e tento sugar na brisa gelada todos os cheiros da natureza. Minhas vistas se embriagam, vejo várias pandorgas dançando no céu. Eu nunca soube fazer pandorgas, por receio da eficiência alheia e também porque os moleques mais velhos não permitiam. Gostava da eufonia provocada pela rabiola de plásticos coloridos enquanto a linha era esticada: o gemido da vida ganhando forma num brinquedo colorido. Aquele barulho da subida aos céus ainda navega na minha mente. Ficava, então, rodeando a brincadeira, até que alguém me permitisse apanhar a latinha envolta em linhas banhadas de cerol. Meu coração pulsava acelerado. Agora, a pandorga, presa a uma tênue rede de linha, dependia da firmeza da minha mão. Era como se a vida pulsasse no céu e dependesse dos meus dedos fortes a segurá-la.Na emoção do momento, muitas vezes os dedos sangravam, mas eu nem ligava, eu era criança,........
