Chico Vigilante, meio século defendendo quem vive do próprio trabalho
Em 9 de junho de 2026, no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quebrou o protocolo de uma cerimônia oficial para chamar ao microfone presidencial um deputado distrital do Partido dos Trabalhadores. O gesto marcava a regulamentação de um decreto voltado à categoria dos vigilantes brasileiros, e o homem chamado à frente das câmeras era Francisco Domingos dos Santos, o Chico Vigilante, apresentado por Lula como compadre e como símbolo nacional da luta da categoria, alguém que soube se desenvolver profissionalmente e politicamente ao longo de toda uma vida de trabalho.
Emocionado, Chico relembrou publicamente o primeiro encontro dos dois, em 1979, nas galerias do Congresso Nacional: a ajuda financeira recebida naquela ocasião do jovem metalúrgico do ABC paulista, a viagem posterior a São Bernardo do Campo e, com evidente orgulho, o convite feito ao próprio Lula para ser padrinho de um de seus filhos. Diante das câmeras, tratou o decreto assinado naquele dia como a consagração de um sonho antigo, nascido ainda em seu mandato de deputado federal, quando apresentara o primeiro esboço de um estatuto para a categoria, projeto interrompido por sua derrota eleitoral e depois conduzido à maturidade legislativa pelo colega Paulo Rocha. Pediu ao governo a criação de uma medida provisória de combate ao calote salarial, tanto no setor público quanto no privado, reivindicação que descreveu como urgente para trabalhadores cansados de ver o próprio salário virar promessa não cumprida. Encerrou o discurso concedendo ao próprio Lula, em tom de brincadeira carregada de afeto, o título de vigilante honorário do Brasil.
A cena no Planalto nasceu de uma amizade de meio século, construída entre dois homens que se conheceram como trabalhadores muito antes de se tornarem líderes, e que resistiu a décadas de sindicalismo, a mandatos parlamentares e a uma prisão injusta, sem jamais se romper.
Do sertão maranhense ao rádio de pilha
Vitorino Freire fica a quilômetros de distância de qualquer sonho de poder. Ali nasceu, em 8 de setembro de 1954, Francisco Domingos dos Santos, filho de Josefa Aclísia dos Santos e Raimundo Domingos dos Santos, criado numa terra maranhense que, há gerações, envia seus filhos a outros cantos do Brasil atrás de trabalho e de uma vida melhor. Concluiu apenas o ensino primário em sua cidade natal, formação escassa que jamais se converteu em limite para o caminho que construiria décadas depois. Ninguém naquele chão de infância poderia imaginar que aquele menino se tornaria uma das figuras mais duradouras da política........
