A China real começa onde os estereótipos terminam
Durante meio século, parte expressiva do Ocidente cultivou um hábito confortável: falar da China sem estudá-la. Criou-se um vocabulário automático — ameaça, cópia, massa obediente, regime opaco — repetido como mantra por políticos, colunistas e comentaristas que raramente se dão ao trabalho de investigar dados, história ou vida cotidiana.
Não se trata de ignorância casual, mas de preguiça intelectual sistemática, aquela que transforma preconceito em opinião e estereótipo em análise. Esse vício não é neutro. Ele desumaniza. Ao reduzir 1,4 bilhão de pessoas a uma caricatura funcional — “eles” —, o discurso estereotipado autoriza o desprezo moral e dispensa o rigor factual.
Tudo o que a China faz vira suspeito por definição. Se cresce, é “ameaça”. Se inova, é “cópia”. Se planeja, é “conspiração”. Esse padrão não descreve a China; denuncia a pobreza analítica de quem o utiliza.
Os números, porém, não se deixam intimidar por slogans. Desde 1978, quando se iniciam as reformas econômicas, o crescimento médio anual do PIB chinês girou em torno de 9% a 10% por várias décadas, segundo o Banco Mundial. Isso não é um detalhe estatístico: é uma transformação estrutural que alterou o comércio global, a logística, a indústria e o padrão de consumo de dezenas de países. Crescimento dessa magnitude não se sustenta com improviso, muito menos com “truques”.
Mais contundente ainda é o dado social que desmonta qualquer discurso desumanizante. O Banco Mundial registra que quase 800 milhões de chineses saíram da pobreza extrema entre o fim dos anos 1970 e 2020 — cerca de 75% de toda a redução da pobreza........
