"Vocês serão punidos e nós seremos até o fim"
Quando a notícia da condenação do professor Jyrson Guilherme Klamt chegou às redes, algo aconteceu que o sistema raramente prevê: travestis gravaram vídeos. Não como vítimas pedindo compaixão ou como personagens de uma reportagem sobre exclusão. Mas como sujeitos que reconheceram, na sentença judicial, um pedaço de sua própria história — e decidiram falar sobre isso em voz alta, para quem quisesse ouvir.
Em 1º de novembro de 2023, no refeitório do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, o professor Klamt abordou duas alunas trans — Louíse Rodrigues e Silva e Stella Guilhermina Branco Fontanetti — um dia após a inauguração de placas transinclusivas nos banheiros da instituição. Questionou, em tom de deboche, qual banheiro elas usariam. Afirmou que, se entrassem no banheiro feminino com a filha dele lá dentro, sairiam mortas.
As duas eram as primeiras alunas transexuais do curso de Medicina da USP Ribeirão Preto. Registraram boletim de ocorrência. Falaram publicamente. Sustentaram a denúncia por mais de dois anos dentro de uma instituição que, ao mesmo tempo em que abriu suas portas para elas, mantinha no corpo docente quem as ameaçava de morte.
Em maio de 2026, a juíza Carolina Moreira Gama, da 5ª Vara Criminal de Ribeirão Preto, condenou Klamt a 3 anos, 10 meses e 20 dias de reclusão em regime aberto por transfobia. A pena incluiu o pagamento de R$ 10 mil a cada uma das vítimas e contribuição mensal de um salário mínimo, por um ano, a uma instituição LGBTQIA da cidade.
Na dosimetria, a juíza considerou a carga especialmente violenta da fala, a exposição pública das vítimas, os impactos em suas rotinas acadêmicas e psicológicas, o fato de serem as primeiras formandas trans da Faculdade — e a posição institucional do réu, de quem se esperava apoio, aprendizado e tolerância.
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