O Brasil deseja a paz, mas está despreparado para a guerra
Maior país da América do Sul, com território de 8.510 km², partilhando fronteira com dez países, quinta maior população do mundo (215 milhões de habitantes), 80% urbana, 50% metropolitana, uma costa de 7.401 km (8.500 km se considerarmos as baías e suas reentrâncias), décima economia do planeta, o Brasil é, no entanto, incapaz de se proteger da cobiça internacional.
Em um mundo em guerra, apresenta-se indefeso, apesar de sua posição estratégica no hemisfério. Indefeso quando é a maior costa do Atlântico Sul, largo corredor de rotas comerciais que levam ao continente africano. Somos país e território militarmente indefeso, apesar de sermos um dos maiores produtores de alimentos de um mundo que conhece a fome. Ainda indefeso apesar da posse de recursos minerais estratégicos, entre os quais a segunda ou terceira reserva mundial de terras raras, cobiçada por todas as potências guerreiras, a começar, evidentemente, pelos EUA. Chama-se “terras raras” o conjunto de 17 elementos químicos, base de toda a moderna tecnologia, inclusive militar; delas carecem desde reatores de submarinos nucleares a baterias para veículos elétricos.
Nosso país é indefeso porque ignora seu destino: sem projeto de ser, sem projeto de nação, sem projeto de país — o trágico mal de origem.
Ao fim e ao cabo, o Brasil não tem política de defesa, simplesmente porque não carece de política de defesa um País que renuncia à sua autonomia estratégica. E foi o que fizemos quando, após a Segunda Guerra Mundial e no curso da Guerra Fria — à qual aderimos sem nada termos a ver com ela —, nossa capacidade militar passou a ser concebida como ancilar do poderio do Pentágono, conformada como mera continuidade de uma dependência político-ideológica que, renovada, vem de longe, regada pelo cantochão da classe dominante de sempre.
Joaquim Nabuco, monarquista na República, nosso embaixador (1905-1910) e primeira voz do “panamericanismo”, diria, discursando em Washington: “A aproximação do Brasil com os EUA não é política de ocasião; é política de destino. Entre as nações americanas, o Brasil reconhece naturalmente nos EUA o centro de gravidade do sistema continental.” Os primeiros idos da República anunciavam sua história, da qual ainda não conseguimos nos desapartar.
Essa visão ideologicamente subordinada dos primeiros momentos da República (herdeira do Império) chega aos tempos da última ditadura. E nada mais significativo do que o sempre lembrado discurso do general Juraci Magalhães, outro embaixador brasileiro nos EUA (1964-1965), também em Washington, desta feita para empresários e, evidentemente, sem a elegância do tribuno pernambucano: “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”. Esta voz indicava o que seriam os 21 anos do regime fardado: tempos de absoluta hegemonia dos EUA, que ditariam nossa presença subordinada na ordem internacional e também o armamento com o qual nos deveríamos equipar, cerceando-nos de qualquer autonomia operacional, mesmo em caso de defesa.
Desgraçadamente, os discursos de Nabuco e do general Juraci não representavam arroubos pessoais; estão, ainda hoje, vivos nos círculos da alienada classe dominante brasileira, que comporta, além da Faria Lima e dos barões do agronegócio, setores atrasados da caserna e o lamentável Congresso Nacional que aí está, incansável na destruição da promessa de Estado social com a qual acenaram os constituintes de 1987.
Essa velha e persistente opção pela dependência — o “complexo de vira-latas” apontado por Nelson Rodrigues —, que nos persegue desde a Colônia, pervade toda a vida nacional. Está na narrativa ideológica que escamoteia a realidade, habita os........
