Fadiga de materiais: quando o desgaste enseja o fim de um ciclo
Na mecânica estrutural, a chamada “fadiga de materiais” designa o processo mediante o qual um corpo, submetido a solicitações cíclicas, não colapsa de imediato, mas desenvolve, progressivamente, microfraturas até que, subitamente, se rompe. O decisivo não é o excesso momentâneo de carga, mas a repetição prolongada de esforços menores, inclusive de determinados valores-limite suportáveis. Daí rupturas radicais. A este processo alia-se a degradação das propriedades mecânicas do material. Certos períodos da vida política da humanidade são marcados por longos momentos de desgaste, às vezes imperceptíveis, que se resolvem mediante alternativas que, conhecendo a ruptura, se operam como um simples desenvolvimento das forças sociais. Se transpusermos a fórmula da fadiga de materiais para o mundo social, -- nosso propósito -- o que emerge é uma espécie de lei não formulada da fadiga das instituições e das formas políticas: regimes, ideologias, partidos, movimentos sociais e lideranças não entram em crise apenas por choques externos ou erros táticos ou estratégicos, mas pelo desgaste cumulativo de sua própria operação cotidiana, sob a ação do processo histórico, que a tudo preside. Analogamente à degradação das propriedades dos materiais, emerge a vulnerabilidade da sociedade. O intento deste texto é identificar um ponto de apoio teórico para entender a exaustão progressiva dos sistemas institucionais. Analisando o plano histórico, podemos considerar a hipótese de que há momentos de fadiga no processo social, que, ao contrário do que ocorre no mundo da física, não vêm à luz como fato inesperado ou de eclosão súbita. Resultam, por regra, de um longo processo de desgaste endógeno. Regimes políticos, partidos, lideranças carismáticas e sistemas ideológicos não se esgotam apenas à força de crises agudas, mas pela deterioração cumulativa de sua própria reprodução cotidiana. Não é o excesso de energia que os degrada, ou paralisa, ou os torna superados, mas a simples repetição de seu modo de ser, donde a falência ou esgotamento da capacidade de manter-se sempre contemporâneo e, ao mesmo tempo, inovador, isto é, caminhando lado a lado do processo social, ou mesmo a ele se adiantando. Que é a melhor receita. Histórico, todo projeto político tem seu tempo. Quando perde o passo, esgota-se. Um dos indicadores do que buscamos identificar como “fadiga de materiais” – transportando para a vida social uma lei da mecânica –, é a perda progressiva de liderança decorrente do esgotamento do projeto político e, a partir daí, do discurso, da formulação ideológica que dirige as ações e faz o processo social avançar. Assim se explicam grandes movimentos políticos que se esvaziam, ideias que derretem, doutrinas que se deixam superar, às vezes sem explicação clara. Um exemplo, entre nós, é o fastio contemporâneo do positivismo, após dominar o pensamento brasileiro e, nos seus primeiros tempos, dar as coordenadas doutrinárias da República. No plano político é evidente o recuo do varguismo e do trabalhismo. Max Weber (Economia e sociedade) analisa a transformação do carisma em rotina, ao nos dizer que mesmo as lideranças que nascem como força criadora –tanto o dirigente carismático quanto o partido – tendem, com o tempo, a........
