Lula, não entregue o futuro
A história não perdoa quem repete erros estruturais. Ao abdicar do controle sobre uma das cadeias mais decisivas do nosso tempo, o Brasil corre o risco de reafirmar seu lugar na divisão internacional do poder: fornecedor de riqueza, dependente de tecnologia.
O governo errou no momento mais crítico
O governo errou no momento mais crítico. Não é um desacordo técnico, não é uma divergência de desenho institucional, não é uma escolha administrativa entre alternativas equivalentes. É uma decisão estratégica que toca o nervo do futuro do país. Ao recuar da Terrabras justamente quando as terras raras deixam de ser um tema de nicho para se tornarem o eixo material da disputa global por tecnologia, indústria e poder, o governo abre mão de um instrumento que não poderia ser tratado como opcional. E faz isso no exato momento em que as principais potências organizam, com método e sem pudor, suas cadeias sob comando estatal, financiamento público e estratégia nacional. Não há neutralidade possível aqui. Há direção histórica. Há escolhas que se ajustam com o tempo, que se corrigem na prática, que se compensam por outros caminhos. E há escolhas que, se mal feitas, empurram um país para mais uma volta no mesmo ciclo conhecido, no qual se possui a riqueza, mas não se controla o poder. Este é o tipo de erro que não nasce pequeno e não cobra barato.
A extrema-direita já tenta sequestrar esse episódio, como faz com tudo, para desgastar o governo e produzir ruído político. É previsível, é oportunista e não interessa ao país. Mas é justamente por isso que o campo democrático não pode cair na armadilha de se calar. Criticar essa decisão não é fazer coro com quem quer destruir o governo. É fazer o oposto: é tentar impedir que um erro estratégico enfraqueça o projeto que precisa derrotar o fascismo. Defender Lula contra a extrema-direita continua sendo uma tarefa histórica. Mas defender o Brasil exige algo a mais: exige a coragem de dizer, com clareza, quando o governo erra. Lealdade política não pode ser confundida com silêncio diante de uma decisão que compromete a soberania nacional. Se a crítica honesta for interditada em nome da conjuntura, o que se perde não é apenas o debate. É a capacidade de corrigir o rumo antes que o erro se transforme em destino.
O fato é simples e, por isso mesmo, incômodo. O governo decidiu não apoiar a criação da Terrabras e optou por um modelo em que o setor privado assume o protagonismo, com o Estado atuando como regulador, indutor e financiador indireto. A justificativa fala em limites fiscais, dificuldades políticas e necessidade de atrair investimento. Nada disso é irrelevante. Mas, nesse caso, tudo isso é insuficiente. Porque o que está em jogo não é apenas viabilizar projetos ou acelerar a produção. É definir quem comanda a cadeia, quem controla o conhecimento, quem decide o destino do recurso. E isso não é um detalhe. Não criar a estatal não é evitar um problema. É escolher um modelo. E, ao escolher esse modelo em um setor dessa natureza, o governo desloca o centro de gravidade da decisão para fora do Estado, justamente onde ele deveria estar mais presente.
E o problema se agrava quando se observa o momento em que essa decisão é tomada. Não estamos falando de um cenário estável, em que o Brasil poderia testar modelos com margem de erro.........
