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Irã: o campo de batalha do século XXI

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25.03.2026

Enquanto Estados Unidos e Israel apostam na superioridade tecnológica, na integração massiva de dados e na promessa de controle total do campo de batalha, o Irã opera em outra lógica. Dispersa forças, satura sistemas de defesa, prolonga o conflito no tempo e no espaço e transforma vulnerabilidade em método. De ataques com drones e mísseis em ondas coordenadas à pressão sobre rotas energéticas no Golfo e à articulação de múltiplos atores regionais, sua estratégia impõe custos crescentes, degrada a previsibilidade do adversário e desloca o centro da guerra para o terreno da complexidade. À luz da teoria de Antoine Bousquet, este artigo demonstra, com exemplos concretos nos campos militar, econômico, político e informacional, que o Irã não é uma exceção periférica, mas a expressão mais avançada da guerra contemporânea.

Há muitos anos venho me dedicando ao estudo da guerra híbrida, das operações psicológicas e das transformações contemporâneas do conflito. Nesse percurso, a obra de Antoine Bousquet tornou-se uma das referências mais importantes para compreender como a guerra evoluiu para além dos modelos clássicos, incorporando complexidade, instabilidade e adaptação como elementos centrais. O atual conflito envolvendo o Irã, os Estados Unidos e Israel oferece uma oportunidade rara de observar, em tempo real, essas dinâmicas em operação. Este texto nasce desse encontro entre trajetória de estudo e conjuntura histórica. Não como uma síntese definitiva, mas como uma tentativa de organizar, de forma clara e honesta, algumas reflexões sobre a guerra do nosso tempo.

O colapso da guerra como sistema controlável

A guerra moderna foi progressivamente reconfigurada, nas últimas décadas, como um problema técnico. A partir da Guerra do Golfo, consolidou-se no pensamento estratégico ocidental a ideia de que superioridade tecnológica, integração de sistemas e domínio informacional seriam capazes de transformar o campo de batalha em um ambiente previsível, gerenciável e controlável. A promessa era clara. Reduzir a fricção, eliminar a incerteza e converter a guerra em uma operação de precisão conduzida por centros de comando altamente informatizados.

Essa concepção ganhou forma na doutrina de guerra centrada em redes, desenvolvida pelos Estados Unidos a partir dos anos 1990. O objetivo era construir uma consciência situacional total por meio da integração de satélites, drones, sensores e sistemas de inteligência. A guerra passaria a operar como um sistema de processamento de informação. Quanto mais dados disponíveis, maior o controle. Quanto maior a conectividade, menor a possibilidade de surpresa. A incerteza deixaria de ser estrutural para se tornar uma falha corrigível.

Esse modelo produziu resultados impressionantes no momento inicial dos conflitos. A destruição de exércitos convencionais no Iraque ocorreu em velocidade inédita. A superioridade tecnológica demonstrou capacidade de coordenar ataques com precisão e de desorganizar rapidamente estruturas estatais adversárias. No entanto, foi exatamente nesse ponto que a promessa de controle começou a se desintegrar. A vitória tática não se converteu em estabilidade estratégica.

No Iraque e no Afeganistão, o poder militar dos Estados Unidos foi incapaz de controlar o ambiente político, social e insurgente que emergiu após o colapso inicial. Grupos descentralizados, com baixa capacidade tecnológica, passaram a operar com alto grau de adaptação, explorando brechas, improvisando táticas e impondo desgaste contínuo. A guerra deixou de responder à lógica da previsão e passou a se comportar como um sistema aberto, sensível a múltiplas variáveis e permanentemente instável.

Esse fenômeno recoloca no centro da análise a formulação clássica de Carl von Clausewitz. Ao definir a guerra como um campo atravessado pela fricção, pelo acaso e pela incerteza, Clausewitz apontava para limites estruturais que não podem ser superados por avanço técnico. O erro do pensamento estratégico contemporâneo não foi ignorar essa formulação, mas supor que a tecnologia poderia neutralizá-la. A tentativa de transformar a guerra em um sistema controlável produziu uma leitura equivocada da própria natureza do conflito.

É nesse ponto que a contribuição de Antoine Bousquet se torna decisiva. Ao analisar a evolução dos regimes da guerra, Bousquet demonstra que o paradigma cibernético, centrado na informação e no controle, é historicamente situado e carrega fragilidades próprias. Sistemas altamente integrados dependem de fluxo contínuo de dados, de coordenação precisa e de estabilidade operacional. Essa dependência os torna vulneráveis ao ruído, à sobrecarga e à desorganização. A busca por controle total não elimina o caos. Ela cria novas formas de exposição a ele.

O resultado é um deslocamento profundo. A guerra deixa de ser compreendida como um sistema passível de controle pleno e volta a se afirmar como um fenômeno complexo, dinâmico e não linear. A previsibilidade se torna limitada. A adaptação passa a ser central. A capacidade de operar sob incerteza ganha mais importância do que a superioridade tecnológica isolada.

Esse colapso do modelo de guerra controlável não representa apenas uma falha operacional. Ele marca o esgotamento de um paradigma. A guerra contemporânea já não pode ser pensada como um problema de gestão de informação. Ela exige uma leitura baseada na complexidade, na instabilidade e na interação entre múltiplos níveis de conflito. É nesse novo terreno que emergem estratégias capazes de explorar as fragilidades do modelo dominante. E é nesse ponto que o caso iraniano deixa de ser periférico para se tornar central na compreensão da guerra do século XXI.

Bousquet e a guerra na era da complexidade

Se o primeiro movimento foi desmontar a ilusão da guerra como sistema controlável, o passo seguinte é compreender o que surge em seu lugar. É aqui que a leitura de Antoine Bousquet se torna central. Ao analisar a evolução histórica da guerra, Bousquet demonstra que cada período organiza o combate a partir de um regime científico dominante. A guerra moderna não evolui apenas em termos de armas ou táticas, mas em função das formas de pensar o mundo, a matéria, a informação e a organização.

Nesse percurso, ele identifica quatro grandes regimes. O mecânico, associado à previsibilidade e à ordem linear. O termodinâmico, marcado pela energia, pelo atrito e pela entropia. O cibernético, estruturado pela informação, pelo controle e pela retroalimentação. E, por fim, o regime contemporâneo, que ele denomina chaoplexic, no qual a guerra passa a operar sob a lógica da complexidade, da não linearidade e da interação entre ordem e caos.

O ponto decisivo está nessa transição final. No regime chaoplexic, a guerra deixa de ser pensada como um sistema fechado e passa a ser compreendida como um sistema aberto, dinâmico e adaptativo. Pequenas ações podem produzir efeitos desproporcionais. A previsibilidade se torna limitada. A estabilidade deixa de ser um estado permanente e passa a ser uma condição frágil e transitória. O campo de batalha se aproxima de um ecossistema, no qual múltiplos agentes interagem, aprendem e se transformam continuamente.

Essa leitura não rompe com a tradição clássica. Pelo contrário, ela a reatualiza. A incerteza, a fricção e o acaso, que já estavam presentes na formulação de Carl von Clausewitz, retornam agora não como obstáculos a serem superados, mas como elementos........

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