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Agora seremos felizes

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17.09.2026

Agora Seremos Felizes – título no Brasil do filme musical Meet Me in St. Louis – foi lançado no dia 22 de novembro de 1944 na cidade de St. Louis, estado do Missouri. A estréia em Nova York ocorreu poucos dias depois, em 28 de novembro. Foi o primeiro sucesso do departamento de musicais dos estúdios MGM, dirigido desde 1940 por Arthur Freed, autor de algumas das mais conhecidas canções dos Estados Unidos nos anos 20 e 30 e que viria a produzir também alguns dos mais memoráveis filmes destas décadas. Foi Arthur Freed quem adquiriu os direitos autorais de uma série de estórias da autora Sally Benson então publicadas na prestigiosa revista The New Yorker. As estórias são sobre a infância de Sally Benson numa família branca de classe-média, os Smiths, vivendo em São Luis em 1903, na expectativa do grande evento que iria acontecer naquela cidade no ano seguinte:  a Feira Mundial de 1904. Conta-se que Freed teria dito ao  poderoso chefe da MGM na época, Louis B. Mayer : 

«Quero transformar isto na obra mais encantadora da cultura americana já realizada.»

De fato, o  filme  se tornou um dos maiores sucessos da década de 40, influenciando todos os musicais realizados em seguida e dando início à Era de Ouro dos musicais da MGM, que iria se estender até aos anos 60.

 Agora Seremos Felizes foi também o filme que lançou a carreira do então   praticamente desconhecido diretor Vincente Minnelli, que viria a dirigir outros grandes musicais da MGM, como Gigi e Um Americano em Paris. E foi durante as filmagens que Vincente Minnelli se apaixonou pela principal atrriz do filme, Judy Garland. Os dois se casaram em 1945 e tiveram uma filha : Liza Minnelli. 

As críticas foram praticamente unânimes em seus elogios. A revista TIME  escreveu: “A verdadeira história de amor  é entre uma família feliz e um modo de vida.”

 Manny Farber, que Susan Sontag considerava  “o crítico de cinema mais animado, mais inteligente e mais original que este país já produziu”, escreveu que o trabalho de Minnelli neste filme “ demonstra que ele é o realizador mais humano e talentoso que surgiu em Hollywood nos últimos anos.”

Woody Allen declarou que Agora Seremos Felizes é um dos seus três musicais favoritos, ao lado de Gigi e Cantando na Chuva.

 Em 1994, devido à sua importância cultural e histórica,  Agora Seremos Felizes  foi selecionado para ser preservado no  National Film Registry da Biblioteca do Congresso dos EUA. 

No entanto, neste filme há algo que chama a atenção se soubermos ver o que não está lá: não há afro-americanos no filme, não aparecem sequer como simples traseuntes nas cenas externas. A cidade de St. Louis do filme é uma cidade inteiramente branca.

Ignorar a população afro-americana era uma prática comum de Hollywood naquele período. No entanto, St. Louis tem uma história particularmente violenta de controle, remoção e exclusão de afro-americanos. Tem também uma rica história de resistência e solidariedade da comunidade afro-americana em luta contra o racismo em suas diversas manifestações. Ao mostrar uma  St. Louis sem afro-americanos, o filme Agora Seremos Felizes realiza – ao menos nas telas dos cinemas – o sonho da supremacia branca.

                              Violência e Exclusão em St. Louis

No final de 1818 o poder legislativo do Missouri solicitou ao Congresso  dos EUA sua admissão como o vigésimo-quarto estado da União. Na época alguns congressistas, principalmente o representante de Nova York James Tallmadge, argumentaram que o Missouri só poderia ser admitido na União se abolisse a escravidão em seu território. A poderosa elite escravocrata nunca aceitaria esta condição e por fim o Congresso aceitou um compromisso – conhecido como o compromissso de Missouri – pelo qual o Missouri continuaria sendo um estado escravocrata e o estado do Maine seria admitido como um “estado livre”, onde a escravidão não seria permitida. Uma linha divisória foi traçada no paralelo 36° 30’, a fronteira sul do Missouri, gerando a conhecida divisão entre o Norte e o Sul dos EUA que perduraria até a Guerra Civil. A  constituição de 1820 do Missouri explicitamente visava “ impedir que negros e mulatos livres venham para este Estado e se estabeleçam nele, sob qualquer pretexto que seja”. 

Era o início de um processo de remoção da população livre  afro-americana do território do Missouri, incluindo a cidade de St. Louis.

A escravidão no Missouri foi particularmente violenta. William Wells Brown, ex-escravo e autor de uma famosa autobiografia – Narrativa de William Wells  Brown, escravo fugitivo – publicada em 1849, vivenciou de perto a violência escravocrata na cidade de St. Louis , denunciando-a assim:

“Embora alguns considerem que a escravatura no Missouri seja mais branda, quando comparada com os estados produtores de algodão, açúcar e arroz, nenhuma parte do nosso país escravocrata é mais conhecida pela barbárie dos seus habitantes do que St. Louis. Foi aqui que o coronel Harney, um oficial dos Estados Unidos, chicoteou uma escrava até à morte. Foi aqui que Francis McIntosh, um homem de cor livre de Pittsburgh, foi retirado do barco a vapor «Flora» e queimado vivo. Durante os oito anos em que residi nesta cidade, testemunhei pessoalmente inúmeros casos de extrema crueldade (…)”.

 William Wells Brown,........

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