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Brasília no espelho de Aranha

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27.01.2026

O mundo não acordou apenas com o noticiário; acordou com a sensação — rara — de que há um cronograma em execução. Enquanto em Pequim o 15º Plano Quinquenal (2026–2030) se anuncia como um ciclo de decisões encadeadas, em Brasília seguimos, muitas vezes, como se a política internacional fosse um painel de manchetes: ora alarmista, ora eufórico, quase sempre reativo.

A data de hoje tem um simbolismo que vale mais do que nostalgia. Há 66 anos, em 27 de janeiro de 1960, morria Oswaldo Aranha. Ele não era um diplomata de salão; era um engenheiro de poder. Entendia que política externa não é decoração — é instrumento para construir capacidade no quintal de casa. Se estivesse vivo, talvez não perguntasse o que a China quer do Brasil. Perguntaria por que, em tantos momentos decisivos, o Brasil ainda troca densidade histórica por gestos protocolares; por que, diante de grandes ciclos de reorganização mundial, ainda se contenta com aplausos e memorandos, como se isso fosse ativo estratégico.

A China encerrou 2025 com números oficiais que sustentam uma narrativa de estabilidade e continuidade, mesmo sob pressão externa e atritos de reequilíbrio interno. Mas o ponto central não está na cifra — está na direção. O novo ciclo chinês combina reorientação econômica, disciplina administrativa e uma obsessão pelo que chama, em diferentes vocabulários, de autonomia: industrial, tecnológica, energética, financeira e — cada vez mais — informacional.

Esse é o Estado-Projeto em sua forma mais pura: quando a política pública não é um debate interminável sobre intenções, mas um mecanismo de execução. Não é um elogio........

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