Brasil na mira: a ofensiva digital de Trump contra as democracias latino-americanas
A declaração de Trump de que a eleição do Brasil é o seu próximo desafio na recente rodada de eleições na América Latina coloca enormes responsabilidades para todos os nossos povos e, em especial, para nós brasileiros.
Mais do que a influência política tradicional, o que se observa é a construção de uma intervenção imperialista da extrema direita americana, em que a desregulação, a vigilância por IA e a disputa de narrativas contra os candidatos e políticos que defendem a democracia e a soberania dos Estados nacionais foram elevadas a outro patamar.
Sob pretexto de combate à influência geopolítica da China, a intervenção direta das plataformas, data centers, think tanks e softwares de inteligência, chantagem financeira e diplomacia hostil, além de todos os demais e conhecidos meios de manipulação de pesquisas e controle das mídias, novos métodos são usados para remodelar e desarticular democracias frágeis e para criar uma extensão dos interesses dos conglomerados americanos na América Latina.
A atuação das IAs, como Anthropic e Grok, e de think tanks americanos como a Heritage Foundation, regada por bilhões de dólares de aliados de Trump, como o bilionário Peter Thiel, e pelo próprio governo Trump, configura uma nova e sofisticada intervenção política na América Latina.
Depois da onda expansionista das “missões evangelistas” promovidas por “bispos businessmen” nas periferias das nossas cidades, propalando a “teologia do enriquecimento”, o culto ao negacionismo e ao ódio; e da ocupação das rádios AM e FM, dos programas de televisão, das concessões de canais de TV a cabo, do recrutamento de militares do Exército e das polícias por movimentos evangélicos afiliados a organizações religiosas americanas, da organizada invasão de candidaturas de missionários e pastores e seus partidos na política e nos Congressos de deputados, regados a desvios bilionários de dízimos, extraídos em cultos de fanatismo e manipulação política da boa-fé do povo, espalhando o medo e o terror demoníaco contra a ciência, a educação pública e o trabalho honesto, assistimos à ocupação das redes sociais por milhões e milhões de postagens falsas, mentirosas, sediciosas, manipuladoras e mobilizadoras do que há de mais reacionário no espírito antissocial.
O desembarque dos “Profetas” da desregulação
O movimento mais evidente dessa nova geopolítica é a aproximação entre o bilionário da tecnologia Peter Thiel e o governo de Javier Milei na Argentina. Cofundador do PayPal e da Palantir Technologies — empresa especializada em mineração de dados e vigilância em massa — Thiel não é apenas um investidor: ele é um ideólogo e interventor, que há muito declarou que “não acredita mais que a liberdade e a democracia sejam compatíveis”. Sua mudança temporária para Buenos Aires e a compra de uma mansão na capital argentina transcendem o gesto simbólico.
Para Thiel, a Argentina se tornou um “porto seguro”, uma nova “Israel”, um laboratório prático para suas ideias fascistas travestidas de anarcocapitalistas. A conexão ideológica com Milei é imediata: “É um anarcocapitalista que encontra outro anarcocapitalista disposto a levar suas ideias à prática”, celebrou o presidente argentino.
O fascismo com nova roupagem, o “anarcocapitalismo”, mais atraente para os desiludidos e despossuídos, sob a bandeira da plena “liberdade individual”, busca destruir tudo que é público, tudo que é conquista social, todas as proteções e direitos conquistados pelos cidadãos. Seus defensores abertamente declaram-se inimigos dos direitos humanos.
Nada é mais capitalista e radicalmente pró-sistema do que os fascistas autoproclamados de “anarcocapitalistas”.
Essa aliança já produziu frutos concretos, como o anúncio do governo de criar um regime jurídico para “sociedades automatizadas” — empresas geridas inteiramente por inteligência artificial, sem funcionários humanos — além do programa “Gêmeo Digital Social”, uma plataforma de IA que integrará dados pessoais de cidadãos, incluindo participação em protestos.
A presença da Palantir na região e o potencial de contratos com o Estado argentino acendem alertas. A empresa, que fornece software como o Gotham para agências como a CIA e o FBI, permite cruzar bancos de dados de forma a criar perfis de inteligência detalhados. A Argentina se tornou um “espaço de experimentação” para um modelo de vigilância estatal, sob controle........
