Nada como um dia após o outro
A nova pesquisa Genial/Quaest de maio mostra uma recuperação moderada, mas politicamente significativa, do governo Lula. O dado de maior impacto psicológico, naturalmente, é que o presidente voltou a aparecer à frente no segundo turno e ampliou sua vantagem no primeiro.
No cenário simulado de segundo turno contra Flávio Bolsonaro, Lula faz 42% contra 41%. No primeiro turno, Lula sobe de 37% em abril para 39% em maio, enquanto Flávio passa de 32% para 33%.
A distância entre os dois no primeiro turno subiu de cinco para seis pontos. Não é nada, não é nada, mas é bom!
Tecnicamente, no segundo turno, o quadro segue dentro da margem de erro. Politicamente, porém, o impacto é relevante.
Para a opinião pública, para o mercado e para as militâncias de direita e de esquerda, aparecer matematicamente à frente tem peso simbólico. Pode ser meio ponto, um ponto, dois pontos.
Em eleição que todos esperam apertada, liderar por pouco vale muito mais do que parece. Esse efeito se explica pela expectativa geral em torno de 2026.
A maioria dos analistas espera uma disputa dura, talvez decidida no fio da navalha, como em 2022. Nesse ambiente, qualquer movimento muda o humor dos atores políticos.
Modéstia à parte, eu já vinha alertando para isso na semana passada, no meio de toda aquela neurastenia em torno da rejeição do Messias. Bastava Lula crescer dois pontos em uma pesquisa relevante para todos aqueles exageros pseudoanalíticos, segundo os quais o governo “acabou”, serem jogados num passado subitamente remoto.
Pesquisa eleitoral exige sangue frio.
O analista político não pode se deixar sequestrar pela ansiedade do dia, pela neurastenia das redes ou pelo desespero de militâncias que oscilam entre euforia e luto a cada rodada. É preciso olhar a imprensa, observar as redes, ouvir a direita, ouvir a esquerda, acompanhar os independentes e, sobretudo, usar bom senso.
Hoje é mais fácil sentir o pulso da opinião pública do que no tempo em que meia dúzia de editoriais dos grandes jornais fingia falar em nome do país. As redes têm distorções, bolhas e manipulações, claro.
Mas também têm gente real, falando de problemas reais, com raiva real, medo real e esperança real.
O movimento foi mais nítido entre os independentes, o eleitorado que costuma decidir eleição apertada. Em abril, Flávio liderava esse segmento por sete pontos; em maio, a vantagem caiu para dois.
Onde está a vantagem de Lula
Olhando os dados desagregados, a vantagem de seis pontos de Lula no primeiro turno se concentra em dois lugares: entre as mulheres e entre os eleitores mais velhos. Os números ajudam a entender por que isso pesa tanto.
Entre as mulheres, Lula faz 42% contra 28% de Flávio, vantagem de 14 pontos. Entre os homens, há empate: 38% para cada um.
Pelo TSE, o Brasil tem hoje 158 milhões de eleitores aptos a votar. As mulheres são 83 milhões, ou 52,5% do total, e os homens somam 75 milhões, ou 47,5%.
Em números absolutos, isso significa cerca de 35 milhões de eleitoras inclinadas a votar em Lula, contra 23 milhões em Flávio. Entre os homens, os dois empatam em torno de 29 milhões.
A vantagem nacional de Lula, hoje, nasce sobretudo entre as eleitoras. E não é detalhe: as mulheres brasileiras vivem em média sete anos a mais que os homens, segundo o IBGE, e historicamente comparecem mais às urnas.
Esse peso tende a crescer a cada eleição.
Por faixa etária, o padrão se repete e se intensifica. Entre 16 e 34 anos, Lula tem 34% e Flávio 33%, um empate técnico.
Entre 35 e 59 anos, Lula sobe........
