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Nosso problema não é o povo

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02.03.2026

Às vezes, a gente tem que chamar a Casa Grande pelo nome. O texto “Brasileiro trabalha menos que a média mundial”, publicado pela Folha de S.Paulo, no dia 21 de fevereiro de 2026, mostra que a elite brasileira mudou muito pouco desde o século XIX. 

Ao resgatar uma tradição ultrapassada de interpretação do país, a qual já não dispõe de nenhuma credibilidade científica, mas que tem inegável utilidade prática para fins de justificar a desigualdade e a injustiça social, o jornal foi criticado pelos próprios leitores. Ao atribuir os problemas econômicos do Brasil à falta de apego do brasileiro pelo trabalho, o texto se filiou a uma visão tradicional e preconceituosa, segundo a qual os problemas estruturais do país seriam o resultado da indolência, do misticismo e da malandragem do povo brasileiro.

Essa interpretação, embora hoje em dia procure disfarçá-lo, deita profundas raízes racistas e eugenistas. Segundo essa interpretação, o povo brasileiro seria o resultado de uma mistura de “raças inferiores”: o português (considerado um europeu inferior, que prefere o comércio à produção), o indígena e o negro.

É possível aferir que, longe de ser uma excrescência, essa tenha sido uma explicação hegemônica do país até o final de nosso último período ditatorial. Recentemente, causou polêmica a revelação de trechos de uma carta, escrita em 1938, de Monteiro Lobato para o amigo Godofredo Rangel. Neles, o escritor tece elogios à organização racista americana Ku Klux Klan por “manter o negro em seu lugar”. Para Lobato, “a mestiçagem do negro” seria a grande responsável por destruir “a capacidade construtiva” do povo brasileiro.

Embora houvesse à época quem combatesse esse tipo de concepção (algumas das melhores páginas da vertente mais crítica de nosso modernismo, na produção de um Mário de Andrade ou de um Oswald de Andrade, consistem na valorização irônica da malandragem, da preguiça e do messianismo popular), Monteiro Lobato não era o único a pensar assim, naquele final da década de 1930.

Basta lembrar que, entre o final do século XIX e começo do século XX, o Estado brasileiro criou uma série de políticas........

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