Justiça possível, verdade seletiva, realidade exausta: o julgamento do assassinato de Marielle e Anderson
Este texto é um desabafo reflexivo. Deve ser lido como um desconforto que chega junto com algum alívio.
Após oito anos, o Supremo Tribunal Federal condenou os responsáveis pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Houve penas elevadas, perda de cargos públicos, multas e reconhecimento formal de obstruções e sabotagens investigativas. Tudo dentro do previsível. Tudo dentro do óbvio. A justiça foi feita — com aquilo que foi possível levantar depois do desaparecimento de provas, confrontos institucionais, ingerências políticas, abandonos intencionais de linhas de investigação e sucessivas cortinas de fumaça que manipularam o caso ao longo do tempo.
A condenação encerra um processo conduzido para ser mais devagar do que a lentidão da impunidade à qual já estávamos acostumados. Mesmo com o estardalhaço produzido dentro e fora do Brasil. Mas não encerra o mundo político-policial-criminal que tornou o crime possível.
A justiça trabalha apenas com o que pode ser demonstrado. O Rio de Janeiro funciona por distintos esquemas político-criminais independentes. Estes esquemas se tocam e se articulam conforme as conivências convenientes das disputas eleitorais. São para serem vistos escancaradamente. São para serem indemonstráveis judicialmente. Entre uma coisa e outra permanece sempre uma sobra incômoda e angustiante: o sabido que não virou prova admissível, o sabido que não entrou nos autos, o sabido que não pôde ser explicitado sem atingir zonas politicamente sensíveis. O julgamento atribui responsabilidades penais individuais de quem foi entregue com “culpa no cartório”. Relações e vínculos não se sentam no banco dos réus. Porém, crimes políticos expressam estruturas coletivas – esquemas e suas malhas que só existem porque prosperam dentro de segmentos do Executivo, do Legislativo e do Judiciário.
A justiça possível equivale a uma verdade seletiva, negociada no papel e com carimbo. A solução judicial, neste caso, “atendo-se ao que ingressou nos autos”, para ser justa juridicamente, não teve como se aproximar mais da realidade dos atos que compuseram a trama dos assassinatos e suas serventias políticas.
O tempo que separa o crime da sentença não é neutro. E foi nesse intervalo que algo mais aconteceu. Oito anos não são apenas duração investigativa de mandos e desmandos — são um dispositivo político de produção de descrenças e desapontamentos, com exibição com escárnio do poderio dos suspeitos, interessados e beneficiários preservados no subterrâneo dos arranjos político-criminais do Rio de Janeiro.
O tempo da espera não funciona apenas como teste de memória coletiva e institucional. Ele opera como drenagem contínua de energias sociais, afetivas e políticas. Faz renovar diuturnamente a magnitude da perda. Faz experimentar a sensação de derrota e a busca de sua superação a cada nova notícia que requenta ou dá roupagem nova a eventos antigos já conhecidos. A fabricação de suspense diante do que todos sabiam produz louros políticos. Porém nos faz sangrar de novo pela decepção de uma revelação já antes revelada. O assassinato de Marielle e Anderson, em sua versão político-publicitária, durante um bom tempo parecia uma série interminável. Buscava mobilizar audiência com fatos requentados para causar a impressão de que se estava fazendo alguma coisa.
A espera transforma a busca por justiça em rotina prolongada de sofrimento e resistência diuturnos. A nossa dor deixa de ser evento extraordinário e passa a integrar o cotidiano. O suplício se normaliza a cada migalha de próximo passo publicizado ao longo destes 8 anos. A perplexidade perde sua capacidade de interromper a vida comum. A espera deixa de ser exceção. Vira parte do susto cotidiano pela próxima óbvia descoberta para simular que a investigação agora está andando.
A espera com sobressaltos feitos choques elétricos impõe uma dupla violência. De um lado, rotiniza o sofrimento. O intolerável passa a conviver com o ordinário e a indignação pública vai sendo lentamente absorvida pela paisagem política do Rio de........
