A pasta virou a pauta ou como manipular entrevistas políticas no século XXI
A conclusão, primeiro
Começo pelo fim. Quem guarda a conclusão para o último parágrafo está pedindo ao leitor uma paciência que não merece, e neste caso o fim é curto, cabe numa linha e não precisa de suspense nenhum.
Das seis primeiras perguntas substantivas feitas ao presidente da República no Jornal Nacional da noite de 27 de agosto de 2026, seis tiveram por tema dominante corrupção e escândalos. No segundo quarto da entrevista, dois terços. Somada a primeira metade do programa, 83%. Sobre política externa, no ano do tarifaço, nenhuma pergunta. Sobre democracia e instituições, nenhuma. Na noite seguinte, mesma bancada, mesmo cronômetro, mesmo formato e os mesmos dois âncoras, o candidato da oposição foi perguntado sobre tarifas, sobre os Estados Unidos, sobre 8 de janeiro, sobre emprego e sobre clima.
Não foi uma entrevista com Lula. Foi uma entrevista sobre Lula, e o “sobre” está aqui no sentido em que se faz uma reportagem sobre um caso: o entrevistado como assunto, e não como interlocutor.
Quero dizer que a entrevista foi desenhada para acabar com a candidatura Lula. Os números, porém, não me permitem afirmar com tal força. Candidatura não se destrói com quarenta minutos de televisão, e quem acha que sim nunca viu uma eleição brasileira de perto. Uma tese mais fina e por isto mesmo mais séria talvez sobreviva: quis-se recolar em Lula a pecha da corrupção. Não provar nada, não revelar nada, não noticiar nada que já não estivesse noticiado. Recolar. Reativar no telespectador a associação automática entre um nome e uma palavra, que é o único ativo eleitoral que a extrema direita brasileira soube construir em trinta anos e o único que ela ainda tem. Argumento histórico e histérico: histórico porque vem de 1989 sem uma vírgula de atualização; histérico porque não sobrevive à exame e por isso precisa de repetição.
E funciona pela forma, nunca pelo conteúdo. Nenhuma das perguntas de 27 de agosto era ilegítima, e a codificação (que fiz para esse artigo) registra ancoragem empírica de 0,89 numa escala de zero a um, mais alta do que a das perguntas dirigidas ao adversário. O jornalismo estava tecnicamente correto em cada item isolado. É por isto que a coisa é difícil de denunciar e fácil de fazer: ninguém precisa mentir. Basta escolher a ordem do que se pergunta e o que não se pergunta.
Este artigo entrega cinco resultados contra a hipótese de quem o assina: a interrupção, o tempo de fala, a hostilidade das perguntas, a cobrança das esquivas e o tratamento dado à âncora Renata Vasconcellos. Cada um deles é uma bala que dou ao adversário, e dou porque é assim que se faz. Quem só publica o que confirma a própria hipótese não está pesquisando, está advogando.
O que vem a seguir se organiza em quatro tempos: a tradição brasileira de manipular pelo arranjo, o que estes dados não autorizam ninguém a dizer, onde exatamente está a manipulação e, por fim, o mecanismo que nomeia o problema — silenciar alguém enquanto se parece estar lhe dando voz.
I. Da tradição de manipular na política brasileira
Debate do segundo turno, dezembro de 1989. À direita, sobre a bancada de Fernando Collor, o conjunto de pastas coloridas. Reprodução.
Olhem a foto. Não olhem os dois homens, olhem a mesa. Do lado direito da imagem, empilhadas com um esmero que nenhum candidato tem tempo de ter no minuto anterior a um debate de segundo turno, estão as pastas. Elas não foram abertas. Não precisavam ser. O que elas faziam ali não era informar coisa alguma, mas sim significar: significavam que havia matéria, que havia dossiê, que havia contra o adversário um volume de papel tão grande que não caberia no tempo de resposta. Aquilo é linguagem. E é linguagem produzida, falsificada.
Vinte e dois anos depois, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, principal executivo da Rede Globo naquela campanha, contou à Globo News como a coisa se fez. A Folha de S.Paulo registrou a fala em 29 de novembro de 2011:
“Conseguimos tirar a gravata do Collor, botar um pouco de suor com uma glicerinazinha, e colocamos as pastas todas que estavam ali, com supostas denúncias contra o Lula, mas que estavam vazias ou com papéis em branco.”
Collor negou, disse que as pastas estavam cheias de papéis e de números da economia que sequer utilizou, e que nunca tirou a gravata em debate nenhum. Fica-se com duas versões. Ocorre que a terceira voz da história não negou nada: Ali Kamel, então diretor da Central Globo de Jornalismo, respondeu que “a afirmação de Boni só pode surpreender a quem não acompanha de perto a história da Globo”, remetendo às páginas de Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti. Quando o encarregado de defender a casa escolhe defendê-la dizendo que aquilo não é novidade nenhuma, o leitor atento já tem o suficiente.
Some-se a isto o que não depende de depoimento de ninguém, porque está na fita. A edição do debate exibida no Jornal Nacional de 15 de dezembro de 1989 deu três minutos e trinta e quatro segundos aos melhores momentos de Collor e dois minutos e vinte e dois aos de Lula, e a pesquisa citada naquela noite não foi a do instituto que o jornal vinha usando. É o episódio fundador do gênero de manipulação, e está em toda bibliografia séria de comunicação política brasileira.
Aqui é preciso uma advertência, e faço-a contra a preguiça do meu próprio campo. Recontar 1989 não explica 2026. A lição de 1989 não é “a Globo sempre faz isto”. A lição de 1989 é metodológica: a assimetria, quando existe, não mora no insulto nem na cara feia do apresentador. Mora no arranjo e no tempo concedido, na ordem das perguntas. Mora no que se pergunta e sobretudo no que não se pergunta. Mora, para dizer de uma vez, nas pastas vazias.
Uma segunda advertência, contra outra preguiça comum: a de tratar jornalista como mera correia de transmissão. Não é assim que funciona e nem nunca foi. O repórter, o âncora e o editor de texto têm preferências, biografias, ressentimentos e projetos próprios, e isto entra no produto muito mais pela escolha de pauta do que pela ordem recebida de cima. Direção de empresa define moldura. Quem preenche a moldura, no entanto, é gente. Registro aqui, como hipótese minha e sem pretensão de que os dados deste artigo a testem, que a recomposição recente da bancada do Jornal Nacional não é detalhe de recursos humanos: mudar quem senta é mudar quem escolhe a primeira pergunta. E a primeira pergunta, como se verá, foi o evento mais importante da noite de 27 de agosto.
II. O que não se pode dizer sobre as entrevistas de Lula e Bolsonaro
Circulou, e circulou muito, a versão de que Lula foi massacrado: interrompido a todo instante, atropelado, sem deixar terminar uma frase. É a versão que eu mesmo esperava confirmar quando comecei isto. Medi e não confirmou.
O critério é o da análise da conversação. Tentativa de interromper o outro é “tomada de turno” e qualquer........
