Petrobras 2025: menos dividendos, mais investimentos — mas a conta ainda não fecha
A redução dos investimentos foi o principal fator que permitiu às direções da Petrobrás, entre 2021 e 2024, pagarem dividendos altos e insustentáveis. [1] [2] [3] [4]
Em 2025, a direção da Petrobrás retomou investimentos, ainda que de forma insuficiente. Assim como moderou a distribuição dos dividendos, embora histórica e relativamente altos.
Aumento dos investimentos e moderação no pagamento de dividendos
A Tabela 1 apresenta, em bilhões de dólares estadunidenses (US$), o histórico dos Dividendos Pagos e o Investimento Líquido, sendo este a soma das aquisições de ativos imobilizados e intangíveis, reduções (adições) em investimentos e investimentos em títulos e valores mobiliários, descontado do recebimento pela venda de ativos (desinvestimentos). [5]
Em 2021 e 2022 a razão média entre os dividendos pagos e o investimento líquido foi de 804%, nos resultados consolidados de 2023, 2024 e 2025 foi de 232,63% e 133,19% e 43,21%, respectivamente.
Entre 2005 e 2020, a razão média entre dividendos e investimentos foi de 12,7%. Em 2025, essa relação foi de 43,2%, ou seja, 3,4 vezes superior à média histórica.
Conclui-se que entre 2023 e 2025 houve redução da distribuição dos dividendos em relação ao investimento, no entanto os dividendos ainda seguem relativamente altos se comparados com período histórico mais amplo de 2005 a 2020.
Os lucros e dividendos distribuídos hoje, são resultados dos investimentos realizados no passado. É evidente que elevar a distribuição dos dividendos, em detrimento dos investimentos, comprometerá o resultado futuro.
Os números evidenciam que a distribuição de dividendos tem sido desproporcional em relação aos investimentos. Os resultados históricos demonstram que tais políticas não são sustentáveis.
Apesar de ainda alta e historicamente desproporcional, a tendência da redução relativa dos pagamentos de dividendos em relação aos investimentos, desde 2021 até 2025, é outra evidência da sua insustentabilidade.
Além de analisar os resultados históricos da Petrobrás, é necessário comparar suas políticas de investimento e distribuição de dividendos com as de outras grandes petrolíferas integradas.
A Tabela 2 apresenta a comparação dos resultados consolidados de 2025. [5] [6]
Em 2025, a Petrobrás, apesar de ter a menor receita entre as seis empresas, pagou o quarto maior montante em dividendos. Por outro lado, foi a petrolífera que realizou o segundo maior investimento líquido, sendo de 107% em relação à média das demais.
A menor relação entre os dividendos pagos e os investimentos líquidos demonstram como as políticas da alta direção da Petrobrás em 2025 reduziram a discrepância, observada desde 2021, em relação a gestão das grandes petrolíferas mundiais.
Ao analisar o histórico da Petrobrás e os resultados de grandes petrolíferas internacionais é evidente que os dividendos pagos pela alta direção da estatal entre 2021 e 2024 foram realizados em detrimento dos investimentos líquidos e, por isso — entre outros fatores — foram insustentáveis.
O aumento dos investimentos em relação a distribuição de dividendos observada em 2025, apesar de limitado, revela a insustentabilidade das políticas adotadas de 2021 a 2024.
Política de remuneração dos acionistas
A direção da Petrobrás anunciou a revisão da sua política de remuneração dos acionistas. No entanto, a maior parte da política anterior foi mantida, como o pagamento de dividendos trimestrais e proporcionais ao fluxo de caixa livre.
O fluxo de caixa livre é o resultado da geração de caixa descontados os investimentos. A nova política incluiu, ainda, o desconto referente à aquisição de participações societárias. A política prevê dividendos de 45% do fluxo de caixa livre a cada trimestre, redução modesta na comparação com os 60% da política anterior. Ainda foi incluída a prática de recompra e cancelamento de ações, como mais uma alternativa para valorizar o capital dos acionistas. [7]
Quanto menor o investimento, maiores o fluxo de caixa livre e a distribuição de dividendos, além de mais recursos disponíveis para a recompra e cancelamento de ações, com valorização potencial do capital dos acionistas no curto prazo.
O investimento líquido em 2025 foi de US$ 19,1 bilhões, 13% menor se comparado à média histórica dos investimentos da Petrobrás, entre 1965 e 2021, de cerca de US$ 22 bilhões por ano, e 64% menor se comparado com o investimento médio anual, entre 2009 e 2014, de US$ 53 bilhões, em valores atualizados.
Não à toa, a política de remuneração dos acionistas foi bem recebida por agentes do sistema financeiro. [8]
No artigo “Insustentáveis Dividendos Pagos pela Atual Direção da Petrobrás” demonstro que os investimentos realizados em 2021 e 2022 foram insuficientes para repor as reservas, manter a produção e agregar valor ao petróleo da Petrobrás. Aqui verifico que a situação começa a mudar, com os resultados de 2025.
O objetivo essencial das sociedades de economia mista, como a Petrobrás, não é a obtenção de lucro, muito menos aquele lucro não recorrente e de curto prazo, mas a implementação de políticas públicas. O que legitima a ação do Estado como empresário (a iniciativa econômica pública do artigo 173 da Constituição de 1988) é a produção de bens e serviços que não podem ser obtidos de forma eficiente e justa no regime da exploração econômica privada. Não há qualquer sentido em o Estado procurar receitas por meio da exploração direta da atividade econômica. A esfera de atuação das sociedades de economia mista é a dos objetivos da política econômica, de estruturação de finalidades maiores, cuja instituição e funcionamento ultrapassam a racionalidade de um único ator individual (como a própria sociedade ou seus acionistas). A empresa estatal em geral, e a sociedade de economia mista, em particular, não têm apenas finalidades microeconômicas, ou seja, estritamente “empresariais”, mas têm essencialmente objetivos macroeconômicos a atingir, como instrumento da atuação econômica do Estado. [9]
Dos resultados históricos e comparativos, da Petrobrás e de grandes petrolíferas, permitem-se concluir que a redução dos investimentos, a níveis insuficientes para manter reservas e produção de petróleo, as vendas de ativos rentáveis, estratégicos e resilientes à queda do preço do petróleo e seus preços conjunturalmente elevados, possibilitaram pagamentos de dividendos altos e insustentáveis pela direção da Petrobrás entre 2021 e 2024. Recebo com esperança e cautela os melhores resultados de 2025.
[1] F. Coutinho, “Insustentáveis Dividendos Pagos pela Atual Direção da Petrobrás,” 2022.
[2] F. Coutinho, “Petrobrás: Direção Parasitária Corta Investimentos para Pagar Dividendos Altos e Insustentáveis,” 2023.
[3] F. Coutinho, “Direção da Petrobrás mantém investimentos baixos e dividendos insustentavelmente altos em 2023,” 2024.
[4] F. Coutinho, “Petrobrás 2024: direção mantém investimento baixo e dividendo alto,” 2025.
[5] Economatica e Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
[6] Petrobras, “Demonstrações Financeiras Intermediárias Consolidadas”.
[7] Petrobras, “Petrobras sobre Política de Remuneração dos Acionistas,” 2023.
[8] L. Rizério, “Petrobras (PETR4): ações têm salto de até 5,3% com alívio sobre nova política de dividendos; riscos ficaram para trás?,” 2023.
[9] F. Coutinho e G. Bercovici, “Petrobrás é a maior vítima de fake news da história do Brasil,” 2021.
[10] F. Coutinho, “Petrobrás sob Lula: Nada de Novo Depois do 1º Trimestre de 2023,” 2023.
[11] Reuters, “Investimento da Petrobras (PETR4) em novo plano deve ser semelhante ao atual, diz CEO,” 2023.
[12] F. Coutinho, “Prates mantém investimento baixo e dividendo alto na Petrobrás (2T23),” 2023.
[13] F. Coutinho, “Direção da Petrobrás segue míope, investe pouco e paga muito dividendo, revelam os resultados do 3T23,” 2023.
[14] F. Coutinho, “Política de investimentos baixos e dividendos altos é mantida pela direção da Petrobrás no 1º semestre de 2024,” 2024.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
