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Do jaleco ao algoritmo: a nova face da eugenia

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09.02.2026

A eugenia não morreu em 1945. Apenas ajustou o vocabulário para os tempos atuais. Hoje ela fala em mérito, produtividade e custo social para justificar quem pode viver e quem pode ser descartado. O Brasil, com toda a sua dor e mistura, é a prova viva de que a cultura não nasce do gene, mas da história. A promessa de melhoramento humano continua ativa, agora vestida de inovação tecnológica e racionalidade de mercado. 

A historiadora inglesa, Nancy Leys Stepan, especializada em história da ciência na América Latina e no Brasil, já havia demonstrado em sua obra que a eugenia sempre foi mais que um erro científico no século XX. Tratou-se de um projeto social ancorado em interesses políticos, econômicos e morais. A ciência construiu para si uma imagem de neutralidade e, protegida por esse disfarce, legitimou controles sobre as classes subalternas, as famílias e as sexualidades, conforme bem descrito na obra de Michel Foucault. O que parecia técnica era escolha de poder. O que se apresentava como higiene era o modelo de gestão das desigualdades sociais. 

O pós-Segunda Guerra impôs uma catarse intelectual. Diante de tanto horror, a comunidade científica precisou encarar o monstro que ajudara a criar. A eugenia, tratada como saber respeitável, revelou-se projeto de morte. A UNESCO reuniu antropólogos e biólogos para desmontar a ideia de hierarquia natural entre povos. Em 1952, Claude Lévi-Strauss afirmou que nada autoriza explicar diferenças culturais por diferenças biológicas e que a diversidade nasce da história e das escolhas coletivas. Ali ruiu o sonho dos higienistas que pregavam a seleção da nação. O que se dizia ciência era........

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