Pelé: a eternidade não se escreve sozinha
Pelé fez anos ontem. Teria feito 86. Os mortos obrigam a estes cuidados com os verbos. Com o resto somos menos cuidadosos. Dizemos que são eternos e seguimos para a notícia seguinte. Um treinador levantou a sobrancelha. Um avançado apagou uma fotografia. Há uma polémica, há sempre uma polémica. Pelé pode esperar. E espera.
Nasceu a 23 de outubro de 1940, em Três Corações. O calendário fez o seu trabalho. Houve homenagens, notícias, quem lhe devolvesse o nome e o rosto. Não houve silêncio absoluto. Mas há uma enorme distância entre recordar uma data e guardar um lugar. A memória também exige tempo. E o tempo está todo vendido ao próximo assunto.
Pelé é eterno, dizemos. A frase sai limpa, pronta, sem esforço. Serve numa legenda, numa cerimónia, numa despedida. Depois fechamos a gaveta. A eternidade fica lá dentro, arrumada, a não incomodar a atualidade. Até ao próximo aniversário. Até que alguém se lembre de que é preciso lembrar. Estranha forma de tratar um imortal. Dar-lhe uma palavra tão grande e um espaço tão pequeno.
Não interessa saber se foi o melhor de sempre. Essa discussão transforma o futebol numa repartição onde se conferem números para atribuir uma licença de grandeza. Há sempre alguém com mais um argumento,........
